Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

06
Set 18

Não passará pela cabeça dum Encarregado de Educação da maioria dos alunos que frequentam actualmente as nossas escolas que fosse servido ao seu Educando, na cantina da escola, um lanche composto de uma ou duas cenouras, um ou dois tomates e umas rodelas de pepino. Nos países nórdicos isso é um hábito enraizado e se algum E.E. manda um bolo ou bolacha, chocolate nem pensar, ao seu educando, o mesmo é-lhe “confiscado” e devolvido para casa.

A minha esposa deparou-se com estes hábito há mais de vinte anos quando fez o primeiro intercâmbio entre escolas europeias. A colega que a recebeu na Dinamarca, deu-lhe o “almoço” dentro dum saquinho para levar para a escola: Um tomate, duas cenouras e umas rodelas de pepino, com uma fatia de pão preto. Tudo bem! Isto ampara até ao almoço. Só que o almoço não apareceu e teve de se contentar com aquele ”almoço”. Um dia, dois dias, três dias e nada mudou, pelo que teve que “aportuguesar”, valendo-se dos supermercados mais próximos.

Um casal conhecido com filhos foi uns dias a Itália. E porque quando se vai passear nem sempre se pode perder tempo em restaurantes e porque no estrangeiro, dum modo geral os restaurantes são pouco compatíveis com as economias de alguns portugueses, foram procurando matar a fome com sandochas de queijo e fiambre. Não sendo de total agrado de todos mas especialmente do marido, que reclamava constantemente. Quando preparavam uma dessas refeições, num banco do jardim, repararam que outro casal, também com filhos, fazia o mesmo ali perto, só que o almoço deles era pepino com pão. Ao ver aquilo o nosso amigo portuga virou-se para a esposa e disse: “Somos ricos! As nossas sandochas são uma maravilha. Querida, dá-me cá mais uma!”

Reportando-me aos anos sessenta do século passado, entre os meus sete e dezassete anos de idade, na Sarzedas do Vasco, só se aprimorava a merenda quando haviam pessoas de fora a trabalhar em casa dum patrão qualquer. Como já referi em posts anteriores era hábito o patrão dar a merenda. Em situação dita de todos os dias, as pessoas merendavam conforme lhe dava mais jeito e sem um ritual rigoroso de horário para cumprir.

Os restos do almoço, de hoje ou de ontem, pão, normalmente broa, com azeitonas era um requinte. Pepino cortado em fatias ao comprido, com sal. Nada mau. Eu comi muitas vezes. Cebola com pão. Já não sabia tão bem, mas também comi. Cenouras eram pouco cultivadas, pelo que também pouco consumidas. Tomate com ou sem sal, não comia na época. O adocicado do tomate não me sabia bem. Tudo isto de produção própria. Ia-se ao quintal colhia-se e comia-se. Não se comprava mas também não havia quem vendesse. Isto na época... porque fora dela__não havia não se consumia… bom agora os mais novos não sabem quando é a época da maioria dos produtos, tal como não sabem que as galinhas é que põem os ovos…

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Um ocasião fui “obrigado” a comer uma fatia ou duas de tomate com sal, já com dezoito ou dezanove anos. Estava no estabelecimento do Sr. António Rosa, em Vila Facaia, quando chegou o carteiro da sua habitual volta, que por sinal era o meu primo Anacleto. Fez o trabalho que devia, acondicionou as cartas que recolhera dentro da mala, preencheu alguns papéis, porque dai a pouco viria o carro do correio que levaria tudo para a central em Coimbra. Depois disto convidou-me para beber um copo, literalmente um copo de vinho. O Sr. Rosa acompanhou-nos também. Entretanto chega o Sr. Manuel Dinis e paga segunda rodada. Por volta das seis da tarde digamos que o almoço já tinha ido e o vinho estava a cair no fundo do estomago. Eu que não andava derrubado com o peso do dinheiro, mas para quatro copos de vinho ainda tinha, pelo que não querendo ficar mal, paguei terceira volta, mas custou-me mais beber o vinho do que pagá-lo. O Sr. Rosa embora sendo o dono da taberna oferece também o quarto copo. Apesar deles estarem habituados, provavelmente também tinham pouca cama para o vinho, pelo que antes de oferecer a rodada, o Sr. Rosa pegou num ou dois tomates madurinhos, cortou-os aos gomos e pulverizou com sal grosso e distribuiu-os por nós. Eu não disse que não queria o bocado do tomate por vergonha, mas acho que o engoli duma só vez sem mastigar. Hoje sou amante duma boa salada de tomate, mas por incrível que parece foi na tropa que comecei a comer tomate.

Nunca fui amante de grandes leituras. A primeira revista que coleccionei chamava-se “Mundo da Canção” em 1970. Encadernei-as mais tarde e ainda as tenho. Li alguns romances, normalmente depois de recomendados, já não os conto pelos dedos.

Terminei “Cebola crua com sal e broa” e ao seu autor, Miguel Sousa Tavares, devo este desabafo. Nunca fui grande apreciador das suas opiniões e com menos apreço fiquei quando ele fez críticas aos professores tendo na altura demonstrado alguma falha de conhecimento da situação, vindo a sofrer fortes críticas da classe.

Não imaginaria nunca que ele tivesse lanchado dias seguidos cebola crua com sal e broa. As “voltinhas” que os pais precisaram de fazer para que nada faltasse! Filho de quem de quem foi, teve todas e muitas portas abertas. A leitura do seu livro não mudou muito a minha opinião, mas admiro a coragem que teve em fechar essas mesmas portas, quando não se sentia bem.

Leitura recomendada sobretudo a Encarregados de Educação que  reclamam por aparecer uma lagarta na salada, mas não sabem ou não querem saber, que muitos caixotes do lixo nas escolas enchem-se com fruta, bolos e sandes deitados fora pelos alunos.

publicado por Sir do Vasco às 19:14

2 comentários:
PEPINO COM SAL: Veio-me à memória a minha avó Rosa. Ela tinha nas terras da Fonte-Velha um recipiente de barro com sal para acompanhar os ditos pepinos na época deles, no intervalo dos seus afazeres..
COPOS EM VILA FACAIA: Eu não aguentaria esses copos todos…
"CEBOLA CRUA COM SAL E BROA": Não li esta sua obra. Não sendo apreciador das suas teorias, contudo gostei de ler o "Equador".
PEPINO COM PÃO: E porque não?...

Manuel Tomaz a 7 de Setembro de 2018 às 19:00

Eu lembro-me bem da sua avó e sua mãe terem as hortas todas mimosas ali em frente à mina. Era apanhar e comer.
Anónimo a 8 de Setembro de 2018 às 00:00

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