Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

22
Abr 20

 

Muitos emigrantes e poucos imigrantes

Sarzedas do Vasco, cada vez mais deserta como outras aldeias do pais real.

Sarzedenses segundo o principio jus soli, com residencia permanente na aldeia, são apenas três: Aurora Tomás, Rosa Parada e António Barata. A última pessoa nascida na aldeia e ainda por cá, fui eu em 1953. Houve mais tres ou quatro nascimentos posteriores que infelizmente já partiram.

Os antigos muitos terrenos surribaram, vários açudes ergueram para segurar as terras e poderem cultiva-las, construíram tuneis para as águas passarem, e por cima fizeram os nateiros,  desviaram outras através de regateiras artificiais, fizeram regos para irrigação das hortas, organizaram a distribuição das águas por todos, eram as águas contadas, cada pessoa tinha direito a certo tempo de água o suficiente para regar a sua parcela, desbravaram, plantaram oliveiras e outras árvores de fruto, espécies e qualidades agora desaparecidas. Os muitos castanheiros existentes, foram base de sustento durante muitos anos, mas a molestia Da tinta começava a atacá-los. Quando uma pessoa mais idosa se aparentava saudável, dizia-se que "comeu muita castanha". Eram precisos mais terrenos de cultivo. As pessoas eram muitas e precisavam de cultivar para comer… actualmente muitos destes terrenos estão irreconhecíveis em comparação como quando os conhecemos há umas dezenas de anos atrás. Locais onde a presença humana se nota apenas pelas velhas paredes, que formam socalcos, cobertos de vegetação espontânea, quase um retorno ao estado selvagem original.

Os seus filhos cedo iniciaram a sua diáspora.

Migrações:

Saídas temporárias em busca de “ganha pão” em outras paragens.

Os homens iam à ceifa para o Alentejo, desde cedo ouvimos falar das idas a Campo Maior. Como todos os beirões que se deslocavam para o Sul eram chamados de Ratinhos. Eventualmente eram Gaibéus na Borda d’água.

consulta curiosa em:

http://www.prof2000.pt/users/avcultur/LuisJordao/Almanaque/Numero09/Page30.htm

e em:

http://www.folclore-online.com/textos/lino_mendes/tradicao-em-debate.html#.WHK-LmZvjIU

As raparigas iam para a monda do trigo, no Termo de Lisboa, Tercena, Barcarena, Carenque…

Ranchos com gente de várias idades faziam temporadas no Ribatejo. Faziam as vindimas, voltavam para a azeitona: Quinta da Cardiga, quinta de Alorna, quinta de Cima, etc. Os labradores ribatejanos tinham lá os contratantes a quem encomendavam a mão de obra: O Ti Ramiro da Salaborda, o Ti Isidro Abreu da Balsa, não sabemos se outros havia…

A Carda actividade temporária também fora da terra, ouvimos dizer que iam para o Bairro, não sabemos exactamente onde fica, mas parece ser na zona de Pombal, Abiul, uma região e não propriamente uma localidade. Parece ter sido um trabalho bem remunerado. Tanto que fez nascer um ditado popular. Quando era preciso fazer algo que custasse muito dinheiro costumava-se dizer: “Isso só quando o meu avô vier da Carda” o que significava que traria muito dinheiro. Conhecemos o homem que terá sido   o último cardador da aldeia, o ti Eduardo Silva conhecido pelo “Eduardo cardador”. Vivia na Carvalheira. A casa dele foi vendida a alguém de fora, que só vem à Sarzedas de férias ou fim de semana.

Outros se aventuraram naquilo que ouvíamos chamar de “negócio”. Iam para o negócio, andavam no negócio. Em “monografia o concelho de Castanheira de Pera”, de Kalidás Barreto, 2ª edição de 2001, página 388, refere a existência de 7 bufarinheiro em Sarzedas do Vasco.

Uma mula, carregada com umas peças de tecido, mantas ou xailes, barretes ou meias, das fábricas da Ribeira de Pera e lá partiam.

Para o Sul, para o Norte, para a Borda D’Água.

Ainda recordamos os últimos, sarzedenses, aqui residentes com a família, que faziam estas saídas, temporárias, de vendedores ambulantes: O primo Adelino Henriques, conhecido por Adelino Carão e Ti Abílio da Silva Nunes, conhecido por Abílio da Eira. O tio visavô Domingos Rosa Simões, que não conhecemos,  fez as suas vendas pelo sul do país.

Outros, solteiros, arranjaram por lá namoradas e ficaram.

O Tio visavô António da Silva Eiras, ficou pelo Casteleiro em 1856, Sabugal.

Alípio Simões ficou por Alferrarede, Abrantes.

Não sendo da Sarzedas mas descendente, o primo Domingos, (que não conheci) filho do tio avô, Manuel Eiras da Alagoa, casou em Vila Viçosa.

Também iam para o “arranque”, próximo de Badajoz, entre outros o avô Domingos Eiras,  a fim de arrancar raízes de sobreiros e outras árvores previamente cortadas com as quais era feito carvão, e preparavam o terreno para cultivo. E não os deixavam gastar lenha à vontade para confecinar as refeições. Os excrementos secos de animais serviam de acendalha. Alguns homens aproveitavam trabalhos ocasionais longe da terra como por exemlo a construção da barragem de Santa Lusia, Pampilhosa da Serra.

Emigrações:

Além das migrações internas sobretudo para Lisboa, houve quem se aventurou a ir para o Brasil. Os originais donos da casa, (dos quais não sabemos o nome) nas Sobreiras, que terão vendido ao tio visavô Domingos Rosa Simões e passou para sua filha, prima Dores e depois para sua neta Maria Aline, conhecida por Linita.

Já depois de abril de 1974, também descendente de sarzedense, o filho do Ti Jaime serralheiro, Vitor Manuel Henriques da Silva, para S. Paulo, onde tinha um tio irmão da mãe, descendente da Moita, Albino Henriques Lopes. (Informação dada pelo seu 2º sobrinho Vitor Gabriel, finalista de medicina e residente em S. Paulo)

O  Sr. Carlos Searas, falecido, com a colaboração do Sr Salvador da Silva Tomás, no seu blog   http://searascarlos.blogspot.com/2008/

refere:    MANUEL SIMÕES TOMÁS  Natural de Sarzedas do Vasco – Castanheira de Pera, emigrou cedo para S. Paulo – Brasil, onde trabalhou e viveu. Nunca voltou à sua terra natal.

Pessoa que não tivemos oportunidade de conhecer nem de ouvir falar. Seria o tal dono da casa das Sobreiras?

Manuel Simões Almeida e Salvador da Silva Tomás, também para o Brasil.

Quem foi para Lisboa definitivamente, João Vicente e família, que já não conhecemos. Foi dono da casa que vendeu a Domingos Simões (Barbeiro) e recentemente pertenceu aos primos Leonor e marido, falecidos no grande incêndio de 2017.

Para Alcanena, Francisco Fidalgo e família , viveu na casa que é da Maria Helena,   “Mariquitas”.

Mais recentemente para França, João Simões, casado com prima Rosinda. São ainda residentes na aldeia quando estão em Portugal.

Todos procuravam o sustento fora da terra.

Descendentes de Sarzedenses, partiram recentemente com “canudo” na mão. Os motivos são outros mas as necessidades são as mesmas. Os cartunista humorizaram os emigrantes portugueses antigos, portadores de garrafão na mão, agora no séc. XXI portadores de diploma na mão.

Ainda os que temporariamente estiveram emigrados: O bisavô Manuel da Silva Eiras em Angola, Manuel da Silva Tomás, no Brasil e o tio avô Manuel Eiras, sarzedense da nascença, que viveu em Alagoa, também em Angola, e talvez haja outros…

Não sendo da nossa lembrança, houve pequena industria ou fabriquetas de xailes e mantas por Abílio da Silva Nunes e João Vicente.   Com informação do nosso amigo Jorge Dinis, neto do Ti Abílio da Eira, que por sua vez a ouviu de sua mãe D. Etelvina. As lavagens da matéria prima, sobretudo lã e do produto acabado, eram feita no Poço Tinteiro que fica no Sargaçal (“Solgaçal” em linguagem popular), que se situa entre a Balsa e a Sarzedas do Vasco. Sendo assim todo o material era carregado manualmente para o local e transportado de novo para a aldeia.

Quase tudo o que aqui descrevemos é resultado do que se ouviu contar oralmente pelos mais antigos há vários anos atrás. Havendo contudo alguns casos que tivemos conhecimento pessoal. Pode haver incertezas ou enganos não propositados ou ainda outros relatos que possam aqui ser incluídos. Estamos recetivos a qualquer alteração tida como verdadeira ou assunto que não sendo do nosso conhecimento possamos acrescentar.

 

publicado por Sir do Vasco às 18:48

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