Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

08
Jan 20

Mais uma vez o Manuel Vicente conta no seu livro a história dos fojos dos lobos nas aldeias da serra do Gerês. Um fojo é uma espécie de poço fundo, um fosso, para onde eram encaminhados os lobos à frente dos batedores por entre os matagais ou onde se deixavam uma cabra ou ovelha velha sem valor que de noite, com os seus balidos atrairia um ou dois lobos. Estes não resistiam em saltar lá para dentro, não imaginando que seria impossível voltar a saltar para fora e portanto só de lá sairiam mortos pendurados pelas patas numa vara. Eram então levados para o largo da igreja. “No percurso, pelos povoados por onde passavam, não faltaria quem lhes oferecessem o seu tributo, em queijos e enchidos ou algum vinho, pela tranquilidade emprestada com o abate dos lobos”.

Não é do meu tempo que houvessem lobos na  Sarzedas, embora muitas histórias se ouviam acerca deles e dos seus ataques aos rebanhos nos finais do seculo XIX e principios do seculo XX.

Talvez real:

Um lobo terá lavado uma vez uma ovelha chamada "pintadinha" que respondia ao chamar do seu dono: Este sem poder fazer algo para salva-la chamava: "Pintadinha!" e ela respondia "Mé´´eéé" e o dono impotente dizia: "Lá vai ela, lá vai ela, na boca daquele ladrão!"

 Ou mais imaginária

Um velha foi à aldeia vizinha visitar a filha, pelo caminho apareceu-lhe um lobo que queria come-la. "Ò Sr. Lobo, não me coma agora que estou muito magrinha. Eu vou a uma festa a casa da minha filha e amanhã passo por aqui na volta, vou comer muito porque vai haver uma festa, virei então mais gordinha e come-me então! " O lobo aceitou e ficou à espera até ao outro dia. A velha quando chegou a casa da filha comeu e bebeu e  quando estava par vir embora contou o sucedido à filha "Não sei como hei-de fazer, porque o lobo está lá à espera para me comer".

"Não tem problema minha mãe". Respondeu a filha.

"Tem aqui esta cabaça quando chegar perto do sitio onde está o lobo meta-se dentro dela e relobe até passar por ele". Assim foi. Quando o lobo viu uma cabaça a rebolar, perguntou: "Ó cabacinha não viste por ai uma velhinha? A velha dentro da cabaça respondeu: "Nem velhinha nem velhão rebola, rebola cabacinha, rebola rebola cabação!"  E assim escapou de ser papada pelo Sr. Lobo.

 

Na Sarzedas há sessenta anos atrás as raposas por vezes atacavam em grande as capoeiras da aldeia. Quem não tinha as galinhas fechadas de noite estava sujeito a grandes perdas. Lembro-me um ano que as galinhas da tia Conceição das Sobreiras e da prima Dores, que normalmente traziam as galinhas soltas e não as fechavam durante a noite,  foram atacadas por uma raposa que comeu e levou. As raposas comiam e matavam todas as outras e levavam-nas, enterravam-nas para comer depois. Muitas vezes perdiam-lhe o sito. Nessa noite ao ouvirem as restantes cacarejar em alvoroço ter-se-ão levantado e corrido com a raposa. No entanto esta levou ainda algumas que foi enterrar na “Cova da Baralha”, actualmente onde é o quintal da Natalinha. Em casa de meus pais por vezes saltavam os muros e rondavam as capoeiras, sabíamos isso porque as galinhas entravam em alvoroço, embora normalmente estivessem fechadas.

Quem caçava uma raposa também vinha exibi-la publicamente pelas aldeias. Lembro-me, mais do que uma vez, que alguns homens da Sarzedas de S. Pedro vieram pelas ruas da Sarzedas do Vasco com uma raposa e uma bandeja na mão a pedir para raposa, como quem pedia para a festa dum santo. Quem queria dava… mas se lhes dessem um copo de vinho eles já ficavam contentes.

publicado por Sir do Vasco às 20:55

05
Jan 20

O meu colega e amigo, Manuel Fernandes Vicente, no seu livro Vento das Sete Serras conta histórias, lendas, usos e costumes do nosso Portugal, onde inclui também Os Neveiros do Coentral, O Lainte e a fundação da industria de lanificios em Castanheira de Pera. Na página 218 conta uma aventura sua, com dois amigos aí há quarenta anos atrás, que eu vou resumir. Férias de Natal, mochilas às costas carregadas de conservas de atum e sardinha, estão por “trilhos indecifráveis” na serra do Gerês na véspera de Natal, tarde chuvosa em Montalegre. Acampam na margem do rio Homem onde tomaram banho no cachão nessa tarde de vésperas natalícias. “Éramos loucos, mas higiénicos…” Diz ele agora. Encontram-se com um eremita “que depois de muito insistirmos lá aceitou fazer a consoada connosco, com atum, batatas cozidas e pimentos assados.” Depois da ceia “...de imediato o enigmático barbudo se envolveu na capa e se pôs a caminho…” À noite ouviram o que supuseram ser lobos, pelo sim pelo não, a fogueira ficou bem acesa e fizeram sentinela à vez à porta da tenda “…não fosse o lobo também querer celebrar a quadra e cear-nos”. No dia seguinte, sem prendas no sapatinho, tomaram de novo o caminho mais ou menos aleatório. Com a noite a cair “…e sem poiso previsto para pernoitar, demos com um casal de sexagenários…   …e ofereceram-nos o que tinham”. A sopa da panela de ferro “soube-nos como manjar de príncipes…  ...e um palheiro com manjedoura, aquecido com duas vacas e alguns ovinos teria mais conforto que a apertada canadiana. Era o dia de Natal”.

A celebração dos solstícios é conhecida desde a antiguidade. Quase todos os povos os festejavam e muitos adoravam o Sol como um deus. Festas pagãs que anunciavam a chegada ou o renascer da Luz. Mantêm-se ainda em alguns países ou renasce em outros, este paganismo ou neopaganismo. Na Suécia celebra-se a chegada do Verão entre 20 e 25 de Junho, no sábado mais próximo. O midsummer com direito a dança, muita dança e canções à volta do mastro característico, enfeitado com flores naturais, coroas das mesmas flores  na cabeça e até competições desportivas. E depois, em família comilança, bebedeira, mais comilança, mais bebedeira, mais cantiga até adormecerem. É mais importante que o Natal.

As pessoas festejavam a fertilidade, associada à alegria das colheitas e da abundância. Faziam-se fogueiras com o objetivo de promover a sorte, saúde, expulsar doenças, e no caso de mulheres, ter um casamento e para abençoar as plantações e garantir boas colheitas. Mais tarde, à semelhança do que sucedeu com o Entrudo, a Igreja cristianizou essas festas pagãs e assim surgem as fogueiras de S. João e as fogueiras e madeiro de Natal. Dizia o meu avô Domingos, que na Sarzedas do Vasco antigamente era uso fazer baile e fazer fogueiras e também fachas e tochas que os rapazes passavam a correr também pelos campos (e não faziam incêndios).

Já não é do meu tempo haver fogueiras de S. João. E bailes só nas aldeias próximas.

Ao anoitecer do dia 24 de Junho, eu e os dois parentes da Balsa partimos em direção à Salaborda, é noite de S. João, pode ser que se lembrem de fazer um bailarico. Ao chegar à Salaborda Nova, não vislumbra qualquer comemoração nem do solstício nem do S. João. Rumámos à Salaborda Velha... a mesma coisa, não há jeito de nada. Vamos é ao Mosteiro, já que estamos aqui. No Mosteiro “nem chus, nem bus”. Resignados resolvemos voltar para casa. Entretanto surge a hipótese: “já que temos de subir, vamos por este lado e passamos pelo Coelhal”. Um diz mata ou outro diz esfola, toca a andar. Aí vêm eles pela margem esquerda da ribeira de Pera, serra acima. Caminho pedonal por meio do pinhal, mal defino, sabendo nós que podíamos embrenharmo-nos nos matagais da margem da ribeira…”em qualquer bifurcação temos que virar pela direita…” dizíamos nós.

Depois de boa caminhada, eram quase onze horas da noite, avistamos uma casa com pátio murado e uma luz de candeeiro a petróleo na mão de alguém que pouco depois, mais próximos, concluímos ser um homem.

“Boa noite!” dissemos nós.

“Quem é que lá está?” ouviu-se dentro do pátio. “Gente de paz” respondemos.” O senhor pode dizer-nos, onde estamos, que terra é esta? Entretanto o homem abre o portão do pátio. “Então estão perdidos? Hoje é noite de S. João, são rapazes à procura de baile!”, acrescentou. “É verdade! “ respondemos. “Vocês estão na Ameixoeira!” disse o Sr João. “E estamos longe do Coelhal?”

“Não, ao cimo desta estrada, viram à esquerda e o Coelhal é logo adiante”.

“Então obrigado!” Agradecemos nós. E preparávamo-nos para continuar a viagem. Mas o homem continuou: “Então, não querem um copo?” Houve uns segundos de pausa e hesitação. Entretanto já a esposa do senhor João estava no cimo da varanda com outra candeia na mão a inteirar-se do que se passava.

O Rogério responde: “Se o senhor o dá...” De imediato o homem virou-se para trás e disse: "Ó Celeste trás lá uns copos e a picheira”. Bebemos dois copos cada um e depois de alguns minutos de conversa, concluímos que eles conheciam os nossos familiares. Que Deus console suas almas, tal como aquele vinho nos consolou.

Agradecemos e continuámos.

Chegámos ao Coelhal, onde todos dormiam e nem sonhavam que três aventureiros queriam comemorar a noite de S. João.

"Bom...vamos passar pelo Vermelho e se não houver nada, descemos direito ao “munho” do Zé Bernardo". E assim foi, no Vermelho fechámos o circuito, sem dança nem contradança.

Era meia noite, de Verão, amena e com cheiro de hortas regadas, cheirava a milho regado. Atravessámos por um carreirito que saia do meio da aldeia, junto a um rego da água, que nos levaria ao caminho que descia para a Sarzedas...mas, junto do tal rego de água, já fora da aldeia estava uma cerejeira com cerejas maduras, miúdas mas maduras e doces e aí vão três “artistas” para cima da cerejeira e toca a comer cerejas e a reconfortar o estômago... e depois seguimos viagem...

 



publicado por Sir do Vasco às 21:16

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