Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

07
Fev 10

 

O ENTRUDO OU O CARNAVAL?
 
Uma das festas mais antigas do mundo, com raízes pagãs na Babilónia e na Roma antiga, para comemorar o início da Primavera, que foi evoluindo ao longo dos tempos, tendo sido absorvido pela cristianização.
 
O Entrudo (do latim “introitus”)   foi integrado como festa cristã na Idade Média, com as saturnais, para marcar o período de introdução à Quaresma. Sendo este um período de penitências, privações e jejuns, fazia-se na terça-feira que precedia à quarta-feira de cinzas, uma celebração em que as pessoas se fartavam de comer e beber, visitando umas as casas das outras, uma despedida dos prazeres, para entrar nos dias de abstinência.
 
A origem etimológica da palavra Carnaval pode ter vindo de carne levare (afastar-se da carne), que traduzia esse bem-estar profano antes da entrada na Quaresma.
No Renascimento são acrescentados ao Carnaval de Florença os bailes de máscaras, as fantasias e os carros alegóricos.
Da Europa para o Brasil parece ter sido levado por emigrantes dos Açores e da Madeira. Ali evoluiu durante anos, por várias fases até à actualidade como podemos ler no sítio http://virtualia.blogs.sapo.pt/9679.html .
 
Em Portugal faz-se agora a imitação má e feia, do Carnaval brasileiro, por vezes em condições tão adversas, para os actores e para o público, que não compreendemos como é que lhe chamam divertimento.
O Entrudo com raízes genuinamente portuguesas existe ainda em algumas terras. Esse sim, deve ser estimulado e avivado. Os Caretos, em Trás-os Montes, A Marafona, em Macedo de Cavaleiros, O Cardador de Vale de Ílhavo, Carocho de Constantino, Chocalheiro de Bemposta, Chocalheiro de Vale de Porco, etc.
 
 
O ENTRUDO TRAPALHÃO
Existiu um pouco por todas as aldeias.
As cenas improvisadas, em que os representantes se apresentavam mascarados ou não, vestidos de maneira trapalhona, espalhafatosa, atrevida, invertida (não tinha nada a ver com os actuais travestis) o homem vestia-se de mulher, a mulher vestia-se de homem, sozinhos ou em grupo, faziam mais ou menos palhaçadas, macacadas, metiam-se com quem passava, normalmente não falavam ou deturpavam a voz para não serem reconhecidos. Podiam fazer crítica escrita, podiam pedir dinheiro ou um copo... Um adulto vestia-se de miúdo e dava a volta pelas ruas a andar com um arco. Um homem vestia a combinação da mulher. Vestiam-se velhas fardas, do exército ou da polícia.. Vestiam-se de rico ou  de pobre pedinte. Faziam-se de coxo, de maneta, de zarolho. Cada um fazia a festa conforme a imaginação, conforme o que tinha à mão para se ataviar.
 

 

Recordamos, entre outras, duas “actrizes” na nossa infância: A menina Natália  e a menina Zulmira da Sarzedas de S. Pedro, que num Entrudo dos anos sessenta conseguiram “roubar” o burro do Ti Manuel Nunes, (conhecido por Manuel Mouco por ser um pouco surdo) e dar a volta pela Sarzedas do Vasco, indo uma montada no burro outra a puxá-lo pela arreata. O primo Adelino ofereceu-lhes um copo, para ver se tiravam a máscara quando bebessem, mas não...  beberam por cima dela.
Na vizinha freguesia de Vila Facaia tivemos oportunidade de assistir a uma crítica levada à praça, mesmo no largo onde era a praça, por um “palhaço” interpretado pelo Sr. Manuel Rosa. O “entrudo”, vestia um fato macaco, uma mascara cara de gato com um lenço a tapar-lhe o pescoço e trazia na mão, uma pasta tipo bloco de apontamento A4, um martelo e pregos no bolso do facto macaco. Existiam então ainda várias portas e porteiras de madeira para entrada das habitações, pelo que o “actor” pregava dois pregos em linha horizontal numa porta e em cima deles colocava um letreiro com uma frase crítica escrita. Esta frase podia ser um verso que ia rimar com o próximo que fosse colocado. Relembramos dois deles:
 
“OS DO PÉ DA LOMBA, PRECISAM DE UM PONTÃO!”
“PRÓ MOSTEIRO, SÓ DE AVIÃO.”
 
É claro que à época, entre Pé da Lomba e Adega, o atravessamento da ribeira   era feito na água, as pessoas reclamavam uma ponte que tardava em chegar. No Mosteiro, existia uma ponte velha e estreita, de madeira e também se aspirava por uma ponte nova e larga.
 
Hoje temos uma ideia do Entrudo de três dias: Domingo Gordo, Segunda-feira Gorda e Terça de Carnaval.
Antigamente o primeiro dia de festa era o Domingo Magro. Durante toda a semana até ao Domingo Gordo, praticavam diversos ”preparativos” do Entrudo.
 
AS CACADAS
Os rapazes aproveitavam estes dias para fazerem diabruras dirigidas a algumas pessoas. Então, na melhor das hipótese para os visados, eram atirados cacos velhos para os pátios ou escadas da entrada da habitação  dessas pessoas, por vezes com terra dentro e na pior das hipóteses, com excrementos.
 
“ASSORRIAR” O ENTRUDO
“Assorriar” é um termo que não consta do vocabulário português e não conhecemos qualquer outra palavra parecida ou associada, mas era assim que se dizia.
À noite, os rapazes, pegavam num búzio, num corno de boi furado ou num funil grande e quando não havia funil poderia haver um cabaço e toca a soprar no búzio ou no corno. O cabaço ou o funil servia para ampliar a voz. Na encosta do Vale das Relvadas ou do Vale das Figueiras que ficam viradas para a Balsa e para a Sarzedas de S. Pedro era o local certo para provocar a rapaziada de lá.
Partia-se, dividia-se o burro: Fulano fica com as pernas… Sicrano fica com as tripas… beltrano com a cabeça, Cabeça do burro! Eh Burro!
Muitas vezes vinha a resposta, dada pelos rapazes da outra banda.
 
O ENTERRO DO ENTRUDO
Quarta-feira de cinzas, faz-se um grande “palhaço humanóide” que à noite se vai enterrar a uma aldeia vizinha.
Os acompanhantes “choram” com grande algazarra a despedida do “irmão Entrudo” que nos deixa e leva tudo, tudo! Todo o divertimento, toda alegria, que durante a Quaresma não poderá ser exaltada. Apenas depois da Páscoa tudo voltará à normalidade.
 
Recordamos dois enterros:
Duas quartas-feiras de cinzas de pleno Inverno.
Estando a chover não se podia sair para o campo trabalhar, logo isso ajudava a que os homens pudessem ocupar o tempo a executar o “humanóide”. Ao menos já que não trabalhavam divertiam-se!
Um dia, talvez nos nossos oito ou nove anos, a noite já era escura, na estrada que sobe das Sobreiras para a Lomba, ouvia-se a algazarra do enterro. Eram alguns homens e rapazes da Sarzedas de S. Pedro que vinham enterrar o Entrudo. O palhaço fora feito na oficina de marceneiro do “Ti Fernando da Alice” (Não recordamos de momento o seu apelido, conhecíamo-lo assim por ser casado com a Menina Alice. Era assim que nós, miúdos da escola, lhe chamávamos. Mais tarde começou a ser conhecido por Fernando “caraxas” (de caraças), devido ao seu sotaque característico de pronunciar os s e ch e ç como se fossem x, e devido a uma frase que ele terá dito com alguma ênfase e simultâneo desgosto, pelo facto de lhes ter morrido à nascença o primeiro filho. (Deixo aqui um abraço para eles e desejo de boa saúde).
Bom… o “Ti Fernando” era uma pessoa divertida e extrovertida pelo que era ele que fazia de “padre”. O “carro funerário” também era dele. Deram a volta ao lugar sempre a “chorar”.
Que pena eu tenho de ti. Gritava um.
Ai, quem é que há-de viver sem ti! Ai que nos deixas e vais-te embora e levas toda a alegria! Gritavam outros. Avé Maria e Zé côdeas, eu tenho um gato que se ele não morrer eu mato-o! Dizia o “padre” e fazia de contas que benzia.
Chegaram ao largo da fonte de baixo.
Aconteceu a parte melhor…
O primo Adelino, resolveu dar um copo à rapaziada. Levou-os para a adega. Acabou-se o alarido, acabou-se o enterro e a choramingueira. Acabou-se o Entrudo! Beberam uns copos e foram-se embora, com um final feliz. E o palhaço ficou no meio do largo à chuva, nem chegou a ser queimado.
 
Mais tarde, pelos nossos dezasseis ou dezassete anos fizemos parte do “cortejo fúnebre” até à Salaborda Nova, onde se realizaram as exéquias do Entrudo desse ano. O António Barata (Marinha) fez o palhaço e só depois foi “arrebanhar” a rapaziada. Se não estou esquecido, levámos o “defunto” numa padiola e lá fomos todos a fazer o respectivo choradinho até à Salaborda. Uma vez chegados foi feita a encomendação no largo da aldeia, acompanhada de uns rebentamentos de bombas de foguete para animar a festa, seguido da queima do Entrudo representado pelo boneco de palha. Não tivemos resposta nem boa, nem má. A Salaborda era como se estivesse desabitada, as habitações não tinham luzes e pessoas não se mostraram. Claro que ninguém nos deu um copo. O final foi feliz do tipo três em um: fizemos a festa, deitámos os foguetes e apanhámos as canas. Voltámos para casa em bem com a noção de mais uma missão cumprida.
 
O enterro do Entrudo podia ter ainda outro fim, se houvesse uma rivalidade entre os figurantes do “funeral” e os residentes da “aldeia cemitério” no caso destes terem poderio superior aos “visitantes”, ou seja podiam ser mal recebido e corridos à pedra, à distância, ou haver confronto físico imediato.
 
 
“Carro funerário”
     
Como já referimos, o Sr. Fernando era marceneiro de profissão e explorava com a sua esposa, a D. Alice, uma mercearia e taberna em Sarzedas de S. Pedro. Este estabelecimento foi o último lugar onde funcionou o posto de correio, como já referimos em outro post.  No rés do chão da casa mais alta do lado direito  funcionava o estabelecimento. O portão de garagem já era a entrada do anexo oficina, embora na época não tivesse primeiro andar como se vê agora na imagem. 
 
Neste anexo ao estabelecimento, o Sr. Fernando tinha a sua oficina, onde fabricava várias peças de mobiliário: bancos, cadeiras, louceiros e em determinada altura malas, malas tipo baú, aquelas malas usadas à época para ter em casa. Toda a rapariga solteira tinha uma mala daquelas que ia enchendo com o enxoval.
Malas feitas de madeira, forradas interiormente com papel de fantasia e exteriormente com chapa metálica também fantasiada. Despachava as ditas malas pelo Colectivo (transporte colectivo).
O Colectivo era uma espécie de antecessor do DHL, transporte de mercadorias, que quando a quantidade justificava ia à porta entregar. Pertencia à empresa Auto Viação de Pombal que foi nacionalizada pós 25 de Abril de 74. Funcionava entre Castanheira de Pêra e Pombal, passando por algumas aldeias se fosse preciso. Levava e traziam mercadorias várias e fazia ligação com a CP.
O Sr. Fernando tinham que levar as malas à Ervideira para as despachar, para tal arranjou um carro, de tracção humana com que ele e os seus empregados transportava a ditas malas. Esse carro fazia as delicias dos rapazes da escola, de tal modo que ele “prometeu” que faria um mais pequeno, pelo Natal, a quem lhe comprasse lá os cadernos… Engraçado! Visto agora.
          
Cabaceira (latim científico Cucurbitaceae)
 
Planta cucurbitácea que produz cabaças.  Família de dicotiledóneas que tem por tipo a cucúrbita (família das abóboras).
Actualmente vendem em certas zonas, pintadas com vários motivos: palhaço, Pai Natal, frutos, animais, etc. O seu interior ainda se  utiliza em fruta cristalizada, sobretudo no bolo-rei, Antigamente também se utilizavam  na alimentação e a casca depois de bem seca, podia levar água, vinho, sementes e quando furada dos dois lados servia de funil.
 
FOTOS: "carro funerário" 
              cabaça
              mala baú

 

publicado por Sir do Vasco às 22:46

6 comentários:
Caro Armando,
Como é bom ter alguém que nos faz recordar as passagens de nossa vida quando jovéns !!!! Você amigo tem um jeito todo especial para desempenhar essa missão, como é seu habito, não somente na história que conta nesta postagem “O ENTRUDO OU O CARNAVAL?”, como em outras histórias que tem descrito neste seu BLOG, e que para nós, naturais da nossa querida Sarzedas do Vasco, é sempre motivo de alegria e satisfação. Meus parabéns, amigo Armando, e continue porque isso é uma forma de manter a nossa lembrança viva com relação aquilo que fazíamos quando meninos. Claro que a minha geração é diferente da sua (estou com 84 anos), mas os hábitos continuam sendo os mesmos.
Um grande abraço do SALVADOR
(Meu BLOG: http :/ salvadornet.blogspot.com / )
Salvador da Silva Tomaz a 8 de Fevereiro de 2010 às 19:23

Amigo Salvador
Mais uma vez obrigado pela sua participação.
O mal, agora, é a aldeia estar quase desabitada.
E as vivências das "nossas" gentes, na aldeia, evoluiram até ao desaparecimento.
O que escrevo é o pouco que ainda apanhei.
Devo ter pertencido à última geração que viveu estas maroteiras.
É bom recordar!
Um grande abraço
Armando Eiras
Sir do Vasco a 16 de Fevereiro de 2010 às 00:39

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