Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

02
Jul 25

   


CASTANHEIRA DE PERA

cat. pera (15).jpg

OS TRES CAFÉS DO CENTRO

Nos últimos anos 60, primeiros 70 

 

A Leitaria Castanheirense, que só os mais velhos se lembrarão do nome, ainda existe ali mesmo no canto da praça.

 

Espaço exíguo, talvez com cerca de uns 30 m2, onde depois de entrarmos tínhamos à nossa direita o balcão de serviço, na parede oposta, encastrado na própria, um mictório para os homens magros, porque julgo que os gordos não entravam nem cabiam no espaço. Talvez  duas mesas uma de cada lado, não me lembro ao certo. No exterior uma esplanada, coberta por um toldo verde no verão. Daqui se podia vê todo o movimento da praça, quem chega quem vai embora , o táxi que parte, o táxi que chega, quem vem a pé, quem vem de mota, etc.

Atualmente ampliada e remodelada

Depois de almoço era uma enchente de homens para tomar a bica. Com pouco espaço e com tanta gente logo alguém começou a fazer a comparação com um cortiço de abelhas__Ganhou o nome até hoje. O Cortiço.

Frequentado por empregados de escritório, do comércio, funcionários públicos, um ou outro patrão operário, pequeno patrão. Era uma espécie de bar de sargentos.

 

Estando nós virados para o edifício da Camara Municipal, temos à nossa esquerda uma rua nos leva ao café Central, do lado esquerdo da rua, logo a seguir à casa do Sr. Luís, conhecido por “Luisinho”. Um senhor que apenas me lembro, de o ver passear no seu volvo e frequentar o café. O café Central, sempre cheio de fumo do tabaco, com uma ligeira mistura a café, aspeto velho, sujo, paredes enegrecidas com os anos, prateleiras com algumas garrafas também elas com rótulos quase indecifráveis.

Vendia jornais e era o único sitio onde se podia registar o “totobola”, rico ou pobre que quisessem jogar teria de ir ali fazer o registo. Pessoas mais humildes entravam, faziam o registo e saiam sem fazer sala. Era aqui que se vendiam os cigarros “Estoril”, “Sintra”, “Negritos”, que a rapaziada comprava a meias ou triplas e ia dividir e fumar para o fundo do jardim.

Frequentado pelo alto patronato do concelho, que na época era bastante, um ou outro empregado de escritório e bancários.

Era o bar dos oficiais.

 

Do lado norte, em frente à Casa Nascimento situava-se o Bar Chicote, que também ainda continua.

Um ou outro café, um tinto, um branco, uma laranjada ou uma cerveja, não havia traçadinhos, os refrigerantes em garrafas de litro ainda não tinha chegado, quem quisesse traçadinho tinha que comprar uma gasosa de 33 cl  e fazer a mistura à sua maneira.  Servia refeições e vendia sandes___Queijo, Atum ou chouriço?___Pergunta sagrada do Sr. Sebastião.

Há tarde por ali passavam muitos operários, patrões/operários para “molhar a palavra”.

Era o bar dos soldados.

Qualquer dos espaços/café era frequentado apenas por homens. Só tres ou quatro anos depois, talvez por influencia de senhoras e meninas chegadas de outras vilas e cidades e à custa de muitas críticas, se começou a ver a figura feminina a tomar a bica em espaço público.

 

 

publicado por Sir do Vasco às 11:58

 

 

A imagem é da agencia funerária.

Mais um sarzedense que  partiu

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publicado por Sir do Vasco às 11:23

04
Mai 25

ADEUS SANTA TERRINHA

 

Longe vão os anos em que na primeira semana de Setembro vinham de Lisboa as camionetas cheias com imigrantes da aldeia que por lá passavam o ano inteiro. Sendo este fim de semana o dia da Festa do S. Pedro vinham à festa, ver a família e os amigos que não partiram. Primeiro  através da empresa “Barreiros” depois durante algum tempo “Viação Sernache” e ultimamente “Adelino Pereira Marques”. Apeavam-se no Alto da Alagoa, pegavam nas maletas e desciam serra abaixo até à Sarzedas do Vasco. Demorava-se oito horas para vir de Lisboa. Houve quem passasse a fazer a viagem de comboio até Pombal e depois nos autocarros da Auto Viação.

Alguns começaram a vir também pelo Natal, especialmente quando aquele era encostado ao fim de semana. A aldeia enchia-se de gente, era mesmo uma festa! Pouco a pouco a tradição foi-se perdendo, as pessoas começaram a “perderem-se” uns aos outros, os que ficaram e os que partiram.

Mais tarde anos 60/70 as condições foram melhorando, muitos adquiriram carro e começaram a vir muitos mais fins de semana ao longo do ano. Lá pelos anos 80, por influencia sobretudo de amigos, uns influenciavam os outros, pessoas com algum poder económico começaram a comprar casas antigas e a reconstrui-las. Vinham muitos fins de semana, a aldeia ganhou algum movimento. Atualmente ou eles próprios ou os seus descendentes querem desfazer-se dessas casa, ninguém vem mais ou raramente vem.

Chegaram os primeiros estrangeiros. Uma senhora russa, de nome Nádia, que anuncia a manufatura de malas e carteiras e um casal ingles, a Rebeca e o Stev,  parece que trabalhadores digitais.

Entre as cerca de 10 pessoas (?) residentes, apenas um é sarzedense.

 A camara deu um arranjo à calçada que ficou aceitável. No entanto encaminhou as águas para a Quelha da Selada, como antigamente, mas desviou-as pelas hortas abaixo levando toda a terra à sua frente quando chove. Mas os antigos sabiam mais que eles, que a Camara, a qual também não se informou nem quis  saber, porque existia uma regueira desde sempre que, desviava essas águas até ao Porto Pereiro sem danificar os terrenos.

Vão passando alguns “angariadores” de peças antigas esquecidas, sem falar com o dono, mais ou menos à vista, com mais ou menos valor, que depois venderão num antiquário ou feira de velharias.

A santa terrinha já era, já foi, acabou-se a SANTA TERRINHA.

publicado por Sir do Vasco às 20:47

06
Abr 25

 

Em tempos recentes em algumas paróquias, têm-se alterado os hábitos mais tradicionais de iniciara a celebração eucarística. A maneira formal do sacerdote entrar na igreja tornou-se tão banal que mais parece um rapper ou artista pop, a entrar em palco. Ele há padres que entram a rir a dizer: Olá! Olá! Bom dia! Bom dia! Só falta entrarem aos pulos. Depois iniciam a celebração  e não conseguem passar de normais  dito explicadores da Palavra de Deus, muitas vezes em tons monocórdicos que depois de espremidos não dão “sumo” algum.

Outros resolvem dizer a missa toda a cantar, coisa que antigamente só se fazia em dias  de  festa…perde-se assim todo um ritual antigo que fazia “cheirar a festa” fazia de certos dias um dia diferente. Em dias  festivos deixou de se queimar incenso e passou  a queimar-se uma “resina” qualquer, eventualmente chinesa, com cheiro horroroso.

O Padre Ricardo Conceição tem substituído o teatral cumprimento da Paz por uma frase de reflexão muito mais apelativa. Parabéns por isso!

Hoje na Igreja de Nossa Senhora  de Fátima no  Entroncamento, os santos estavam tapados com panos roxos. Antigamente desde quarta feira de cinzas até à Aleluia, os santos estavam  sempre tapados e não havia flores nas igrejas.

Quando cobrimos os santos na quaresma e, sobretudo na Semana Santa, estamos querendo representar que, antes de eles viverem o mistério da glória com Cristo, passaram pelo mistério da dor, dos sofrimentos e da morte de Jesus. Os santos não são cobertos como sinal de luto, mas sim como sinal do mistério de “solidariedade” e união profunda ao mistério da Paixão do Senhor. Nós os cobrimos, dando um ar “pesante” ao espaço litúrgico, nada alegre, pois agora é tempo de pensar na paixão do senhor.

Isso fica ainda mais claro quando, no canto do Glória na Vigília Pascal vemos cair os panos roxos e volta a alegria pois, no lugar daquela cor pesada e triste, aparecem de novo as imagens coloridas e bonitas, sinais de quem venceu com Cristo, tendo passado pela sua cruz em união à Dele.

Servia este hábito para que os fiéis se concentrassem em Jesus  e melhor preparassem a Páscoa,  para melhor viver o mistério da Paixão de Cristo. 

 

publicado por Sir do Vasco às 23:00

02
Fev 25

Hoje a Clarinda Henriques na sua Página do FB publicou um post sobre a via de extinção das fogaças. Isso levou a reboninar as ideias e relembrar muita coisa relacionada. por isso resolvi escrever este texto.

 

Dia de festa na  Sarzedas de S. Pedro.

A recolha das fogaças no domingo de manhã pelas aldeias com a banda a tocar. O primeiro cheiro de festa. Na Sarzedas, a banda ia a pé com os instrumentos "as costas", à Ervideira, ao Vitoiral (digo Vitoiral, porque poucos sabem que é Souto Fundeiro), depois desciam pela Balsa e seguiam à Sarzedas do Vasco. Aqui, logo que rebentava o foguete anunciador da chegada. eu ia a correr  acompanhá-los... Petiscavam sempre em casa do Ti Zé Marinha e tocavam no fim a agradecer, exceto quando o Altino estava em Timor, ele não quis que tocassem. Depois seguia-se este ritual na casa dos mordomos, se os houvesse na aldeia e recolhiam as fogaças. (Se por acaso em algum ano não houvesse mordomos, davam a volta à aldeia e seguiam para a Sarzedas de S. Pedro). A moça que levasse a fogaça a cabeça tinha que aguentar.

E claro, um foguete e um morteiro lançado em cada paragem. O fogueteiro tinha que trazer o molho dos foguetes, as costas.

Vida dura para todos, até em dia de festa.

A evolução da sociedade leva ao desaparecimento de todas estas atividades, as fogaças não são vendáveis porque há restaurantes com fartura, há carros para deslocações rápidas por isso toda gente vai ao restaurante ou a casa, ninguém leva farnel para a festa, como antigamente.

Recordo sobretudo a quantidade de famílias a almoçar e a minha também, no meio do pinhal atrás da escola velha da Moita ou na Senhora da Piedade, Vila Facaia. Levado de casa e porque era dia de festa, almoçava-se galinha, ou coelho, um bocado de presunto, chouriço e umas filhós ou bolo de forma. Comprava-se um litro de vinho e uma laranjada, dita laranjada nada de sumos, para traçar o vinho, na tasca ao lado, que era feita com um carro de mula com uns pipos em cima de branco e tinto, uma grade de cerveja e uma de laranjadas, quentes no verão frescas no inverno. A sarapilheira molhada colocada por cima não refrescava o suficiente.

Os mordomos aproveitavam e passavam a pedir para a festa, a quem estava a almoçar, se a esmola fosse aceitável para eles, davam um foguete e um morteiro, que normalmente era lançado no local... tudo era festa… e não havia incêndios!!!

Recordo a Banda da Castanheira a tocar durante as procissões, a tocar o tema de Lara, nunca eu, à época, soube que melodia era essa,  mas afinal o filme Dr. Jivago, era recente nos anos sessenta. A música ficou-me no ouvido e soube isso muito mais tarde.

Recordo os altifalantes de campânula colocados na torre da capela, atiravam o som a muitos kms de distância e quem estava no arraial ouvia também e podia conversar com quem estava a seu lado. Hoje é horrível as grandes colunas ao nível do solo com som altíssimo ninguém se ouve e a festa perde interesse, não se pode estar no arraial.

Era extremamente entusiasmante a chamada  barraca da bicharada, com fins de angariação de mais algum dinheiro para as despesas. Vendiam-se umas  rifas de momento às pessoas presente, a1$00 cada  e sorteva-se logo de seguida um animal (já falei disto em outro post anterior). Normalmente animais pequenos, que eram  oferecidos pelos habitantes, que geralmente davam o pior, o pinto pequeno e sem penas, o coelho pequeno e de pelo "arrefocinhado", um pombo.

Hoje tudo evoluiu... coisas melhores... coisas piores.

Ah! E o fogo preso!... Todas as festas tinham fogo preso...hoje só na Senhora da Confiança. Era uma delicia ver aquelas rodas a deita faiscas! O comboio a apitar! Os serradores!. Só é da minha lembrança o fogo no dia da festa à noite, mas diziam os antigos que em tempos atrasados, era só na véspera. O chamado "fogo de véspera".

A última peça a ser queimada era sempre o chamado "castelo" um conjunto muito grande de bombas (hojem dizem petardos) que rebentavam sequencialmente fazendo tremer o chão.

 

publicado por Sir do Vasco às 19:30








 

"Se o candil vier a rir está o inverno para vir, se ele vier a chorar está o inverno a passar"

Não sei se os proverbios ainda são o que eram, mas hoje 2 de fevereiro o candil veio a rir, ou seja esteve mais sol do que céu nublado  e não houve chuva, portanto está o inverno para vir, ainda deverá vir chuva, fazer inverno.

 

Já há anos publiquei um post neste dia  das candeias, tinha ido a um velório...hoje infelizmente fui a um funeral duma colega.

 

 

Dia 2 de Fevereiro.

Dia da Senhora das Candeias, da Luz , da Purificação, da Candelária.

Quarenta dias depois do nascimento de Jesus.

Quarenta dias que as mulheres judias que davam à luz ficavam de resguardo.

Dia da Purificação de Nossa Senhora, no templo, depois de ter dado à luz. (Naquele tempo, depois de darem à luz as mulheres eram consideradas impuras, por isso tinham de ir ao templo para se purificarem e apresentar os filhos)

Celebra-se a apresentação de Jesus no templo.

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Na minha aldeia as mulheres católicas e crentes, punham sempre uma candeia de azeite a iluminar a imagem de Nossa Senhora.

















 



 







publicado por Sir do Vasco às 19:12

05
Jan 25

Desculpa Joaquim Ferreira, pelo roubo desta foto da tua pagina FB.

A noticia da minha aldeia sobre Sr. Jaime Simões Barreiros levou-me a isso. É muito antigo nunca ouvi falar da pessoa e agora suponho que já não haja, dentro dos pouquissimos sarzedenses ainda vivo, quem saiba ou possa informar. Kalidás Barreto na sua monografia também fala de habitantes da Sarzedas do Vasco que partiram para o Brasil. Apenas ouvi contar que os originais donos da casa que fica à entrada da Sarzedas do Vasco, do lado esquerdo da rua, logo a seguir à oficina do Sr. Carlos , a venderam e foram para o Brasil. Já não apanhei quem me soubesse dizer como se chamavam. Esta casa foi vendida ao meu tio bisavô Domingos Rosa Simões, que nela viveu até construir a nova do lado direito da rua, que terá sido construida antes de 1914. Depois passou para a filha dele, prima Dores e depois para a filha desta, familiarmente Linita que faleceu há anos sem descendência, fazendo agora parte de uma herança indivisa.

Quanto ao Sr. Albano Antunes Morgado, deveria estar praticamente no inicio da sua produção industrial. Faleceu há uns anos. Ele, que conheci muito bem, e a quem ouvi contar que no inicio do seu negócio, em certa altura, que indo no Vale da Figueiras entra a Sarzedas do Vasco e a Sarzedas de S. Pedro, levava apenas cinco tostões no bolso e era quanto tinha, disse ele: "pensei! Ter 5 tostões ou não ter nada é a mesma coisa ... atirei com a moeda fora". Empenhou todos o ouro da mulher e da sogra para fazer os primeiros negócios... Atualmente a " ALBANO MORGADO SA" é a única fábrica a laborar em Castanheira de Pera, gerida pelo Sr. Albano Morgado, neto.

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publicado por Sir do Vasco às 15:54

30
Jun 24

A toponímia dum local está sempre relacionada com algo que acontece ou aconteceu nesse sitio. Pode ter surgido por via de um dono, por via da vegetação existente, por causa de uma actividade ai desenvolvida, por espécies de animais que fizeram seu habitat, por um acontecimento mesmo esporádico mas marcante, etc.

Como  referi no meu segundo post em junho de 2007, o topónimo Sarzedas do latim    Ceres(i)a   sendo  plural Ceresedas deriva do facto, de existirem muitas cerejeiras nessa zona.

Nas redondezas de Sarzedas do Vasco, muitos são os topónimos derivados da  flora existente: Soutinho, Souto da Fonte, Vale das Carvalhas, Carvalheira, Vale das Figueiras... Outros como, Quelha da Figueira, porque outrora existiu ali uma enorme figueira, que não sendo da minha lembrança ouvi contar aos antigos. Quelha da selada, por onde se ia até à Selada, Quelha da Fonte, descia até à Fonte (Velha). Derivados de certos ponto de passagem, Porto da Vila, por onde se passava para vila, antigamente, Pedrógão Grande sede do concelho até 1914, Porto do Carro local onde se atravessava o ribeiro por dentro da água, sendo construído neste local um aqueduto, somente no final dos anos 70 do seculo passado. Cabril, Covão das cabras, Cova das Raposas, locais que já não há quem saiba onde se localizam...

Muitas outros motivos existem como origem dos topónimos.

Podem sofrer alterações por evolução natural ou por erro humano. Um exemplo em Vila Nova da Barquinha, existe a capela de Nossa Senhora do Reclamador, que muitos erradamente chamam de São Roque Amador, sendo este o nome dado à rua que leva à capela.

Na Sarzedas deu-se uma “mutação” devido a erro humano de Tarroal, com sempre foi referido pelo povo (seria Torroal) para Tameal, palavra que nem sequer existe com qualquer significado. O “Tarroal” também conhecido por Cova do Barro é uma pequena área onde terá sido retirado grande parte do barro para a construção das casas antigas. Existiam ali alguns grande barreiros, pois nos arredores é o solo mais argiloso. Naquela assentada não  havia grande vegetação mas hoje com a erosão, já não se notam as escavações donde foi extraído o barro. No tempo do incio da promoção do futebol, diz-se que alguns rapazes da aldeia chegaram a usar parte do local para darem uns toques na bola.

Há cerca de 50 anos atrás houve novas avaliações, tendo sido medidos todos os terrenos e referenciados os seus proprietários bem como os nomes dos locais. Os técnicos executantes do processo pretenderam fazer o menor número de nomes dos sitio possível, assim locais como Lomba ficou sendo “Tarroal”. Locais como Cova Silveira passou a Costa Silveira, Além da Fonte passou registada como Vale da Vinha e outras alterações que confundem quem precisa de pesquisar os registos das suas propriedades.

Por experiencia própria verifiquei uma certa  altura nos livros originais que existem na Repartição de Finanças como foi escrito “Torroal”. Assim os dois “oo” estão manuscritamente indefinidos entre as letras “a” e “e”, por sua vez os  dois “rr” assemelham-se a um “m”. O técnico das medições de há 50 anos, não sabia fazer as letras…  … Mais recentemente a pessoa que passou toda essa informação para computador leu  a palavra de acordo com a semelhanças das letras que julgou mais conveniente, assim nasceu “Tameal”. Para mim que conheço os locais, não  foi fácil decifrar a situação, quem não conhece vai aceitar Tameal como verdadeiro nome.

TAMEAL só existe nos registos  dos livros, por erro de escrita.

 Deixo um mapa assinalado com os principais sítios, aldeia e arredores.

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publicado por Sir do Vasco às 12:59

25
Abr 24

 

 

Militares que defenderam a Pátria

 

Uma amiga partilhou na sua pagina  do FB, uma imagem que aparenta uma mulher idosa com um enorme fardo às costas. A partilha trazia o seguinte comentário:  « "em" Antes do 25 de Abril , era assim ! o resto é conversa da treta.»

Podem vê-la na página FB de Alfredo Cunha, conceituado fotógrafo português, e que que terá sido tirada há 50 ou mais anos, porque nela também se vêm carros da época.

Quanto ao comentário digamos que era assim antes do 25 de  Abril e ainda é em alguns sítios. Mas o resto nem sempre é conversa e muito menos da treta. Ou melhor cada um faz a conversa de modo a levar a água ao seu moinho, mesmo que passe por cima da opinião e dos interesses dos outros. E quando não gostam da opinião dos outros, na melhor das hipótese cortam relações ou eventualmente mandam esses outros para uma  “parte” qualquer com todas as letras. A democracia dessas pessoas  termina onde começa a discordância do outro.

Para  outros cidadãos, os fardos que carregam não são visíveis, só eles os sentem. E há muitos! O Estado atira com cada fado aos cidadãos, que alguns não os aguenta. Fardos que antes do 25 de Abril não existiam.  Mas estes, agora,  são sempre em nome do bem estar, da liberdade e da democracia. Os Cidadãos são controlados  e  "dirigidos" pelo Estado muito mais que há 50 anos. Cada um de nós tem pelo menos 4 (fardos) números que nos controlam em todo o lado: O BI ou CC, Nº de contribuinte, Nº da Segurança Social, Nº do SNS e podem existir ainda outros Nº ADSE, Nº Carta Condução, etc.

Liberdade controlada. Cidadãos perseguidos em nome da democracia. Ostracizações por falta de concordância politica, também. ...  …  Somos um país livre e democrático para muitos.

Antigamente, trabalhava-se para comer e quem não trabalhava passava mal. Hoje o Governo dá de mão beijada de comer a muita gente que  não trabalha porque não quer. Em nome da democracia, da igualdade, sobrecarrega (com vários fardos) os que trabalham para dar rendimento mínimo aos que não querem trabalhar. Estes não têm os fardos do trabalho, dos impostos, mas contribuem pondo mais uma pedra nos fardos dos outros. Há, no entanto, os que gostariam de trabalhar e não podem, esses merecem ser ajudados.  E não venham cá dizer que não trabalham porque não há empregos. Por experiencia própria trabalhei em situações piores até arranjar uma melhor onde estabilizei.

Tinha 21 anos. 

E “palermamente” fiquei por ai no final de 1973 e inicio de 1974.

E “palermamente” fiquei à espera de ser incorporado.

O tempo a passar. Não fui em Janeiro, não fui em Abril…fui em Julho, 16 de julho, Caldas de Rainha.

O 25 de Abril de 74 foi “assistido” por mim, num aldeia onde se ouvia rádio e às vezes se via televisão, onde se trabalhava para comer e todos os dias havia gente com fardos como o da tal imagem às costas. Foi muito bom porque me livrei de ir ao ultramar, mas é hoje que digo isto.  Na altura “palermamente” andei quase um ano à espera “ cantado e rindo” disposto a ir e vir quanto mais rápido melhor, nem sequer pensava que podia ir e vir encaixotado… os outros vão … eu também vou.

Apesar de todas as controvérsias, a vida das pessoas hoje é incomparavelmente melhor que há 50 anos atrás. Coisas melhores são muitas sem duvida. Há tantas coisas boas que até há desperdícios sobretudo por quem mais tem (não quero dizer os mais ricos) e que muita falta faria a outras pessoas que pouco têm. Mas quem se reclama de pobre e de ter vida difícil, também desperdiça, vê-se, nota-se, numa simples esplanada de café.

Vida muito melhor que há 50 anos atrás, sem duvida.   …    ...   somos um país livre e democrático para muitos.

Deixo aqui a minha homenagem, (não sei se posso chamar-lhe homenagem, quem sou eu para fazer homenagens?) a lembrança daqueles de quem ninguém fala, os militares que foram ao ultramar, à guerra, para a defesa daquela que foi a antiga Pátria. Era assim! Bem ou mal, foi assim. A Historia não pode ser apagada. Muitos gostariam de  apagar certas partes, mas como não podem tentam a todo custo distorcê-las de acordo com a suas ideologias.

Recordo aqui o Aires Barata Henriques, o primeiro militar da Sarzedas do Vasco a ir para o ultramar, para S. Tomé.  Deixo cópia de um aerograma enviado por ele ao Ti Domingos Eiras, que era o meu avô. Apesar de não estar em zona de conflito armado, teve outros problemas e por certo um clima tropical húmido muito agressivo que não terá ajudado. Nele expressava a suas dificuldades, as suas saudades e o seu desespero. Felizmente regressou são e salvo.

Outros militares sarzedenses, foram ao ultramar. O Altino Barata Henriques, irmão do Aires, para Timor, o Raul Parada (falecido)  e o Eurico ambos para Angola. O Eurico, sarzedense de nascimento, residia em Lisboa e vinha todos os anos várias vezes à Sarzedas. Outros jovens da aldeia estiveram nas Forças Armadas à época, mas suponho que apenas estes estiveram nas colonias.

Aceito as correcções que forem verdadeiras se aquilo que relembro aqui estiver incompleto ou incorrecto.

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publicado por Sir do Vasco às 07:25

13
Ago 22

A técnica da boleia

Depois de ter começado a guerra no ultramar, no inicio dos anos sessenta do século XX o Estado Português começou a recrutar todos os rapazes e mobilizá-los para a guerra. Apuravam todos, mesmo os que não fossem capazes de disparar uma espingarda iam para serviços auxiliares, eram os “básicos”, os que não sabiam fazer nada, de “económicas e vassoureiras” como eram apelidados.

Muitos dos militares sentiram-se em baixo e entraram em desanimo  pelo facto de saberem que iam para a guerra e fez aumentar as saudades da família.

As despesas do Estado aumentaram em muito com as Forças Armadas.

Então surgiu o conceito de “fim-de-semana”. Começaram a mandar embora para casa todos os militares à sexta-feira à noite e teriam de regressar ao quartel até domingo à noite ou segunda feira de manhã a tempo de estar na formatura às oito horas. O Estado poupavam muito dinheiro em comida e ele matavam saudades da família.

Colocou-se depois outro problema, muitos dos militares não tinham dinheiro para as viagens, pelo que começaram a pedir boleia, dando inicio a uma onda de solidariedade para com eles.

Os Cabos-especialistas de FA  até compuseram uma letra onde incluiam a referência às boleias:

Ó Cabo especialista,

mecânico, eletricista,

ou técnico de avião.

As corridas e noitadas,

boleias pelas estradas,

são tempos que já lá vão!

Pouco a pouco começaram a andar à boleia todos quantos se queriam deslocar mas não tinham dinheiro. Pedia-se boleia para não gastar o dinheiro da viagem, pedia-se boleia por não haver transporte público ou porque a hora dele era tardia e indo à boleia ganhava-se tempo…

Na região de Coimbra um traje académico era um bom indicio para arranjar boleia.

Eu fui um dos que fiz centenas de  quilómetros  à boleia.

Davam boleia os que gostavam de ajudar e que gostavam de companhia.

Uns conversavam sem parar contavam as histórias deles e gostavam de saber as nossas, outros perguntavam “Para onde vai?” e não abriam mais a boca até ao fim da viagem. Os camionistas, porque gostavam de ter companhia, bons dadores de boleia, quase todos bons conversadores.

Também aconteciam declarações insólitas do tipo: “Nunca dei boleia a ninguém, não costumo dar boleia e não sei porque parei e lhe dei boleia!” ao que eu respondi “ Fico agradecido por isso e só quero boleia até tal sitio, não se preocupe com mais nada” outro disse-me assim: “Eu dou-lhe  boleia mas não tente qualquer coisa contra mim, porque eu enfio a carro contra uma barreia ou por ela abaixo!”

Mas para pedir boleia à beira da estrada, onde estavam muitos rapazes, (raramente aparecia um casal e muito menos uma rapariga só),  havia um certo procedimento. O último a chegar ia para o fim da fila e havia um distanciamento de 40 ou 50 metros uns dos outros. Por ir para o fim da fila não queria dizer que não pudesse apanhar boleia primeiro. Quem dava boleia, dava a quem achava que devia. À medida que os da frente fossem apanhando boleia a fila ia avançando.  Às vezes estava-se tão próximo uns dos outros que quando um carro parava não se sabia bem para quem era.

Um amigo meu já empregado, contou que quando resolveu fazer um curso superior e que tinha de se deslocar a uma cidade para ia às aulas, ás vezes procurava boleia sobretudo para ganhar tempo. Com boa apresentação e pastinha na mão, está certa altura a pedir boleia. Um certo individuo parou mas de tal forma que ficou mais perto do “pedinte”  que estava atrás dele. Este abeirou-se do carro e o meu amigo ficou parado. O senhor do carro negou-lhe a boleia: “Desculpe, eu não lhe dou boleia a si dou ao senhor que está lá atrás” Parece que o rapaz usou de Fair-play . “Pode vir que a boleia é para si”.

Havia sitos onde não era difícil arranjar boleia Por exemplo a rotunda do relógio em Lisboa para vir no sentido norte. Para mim servia vir por Pombal ou por Tomar, por isso arranjei uma cartolina onde tinha escrito Pombal e Tomar e na parte de trás Lisboa, andava sempre no saco pronta para utilizar. Não podia ter um cartaz  a pedir boleia para Sarzedas ou mesmo Figueiró dos Vinhos, nunca mais me safava. A Shell em Pombal (actualmente Repsol) no sentido Lisboa. De  Coimbra para Figueira da Foz, depois de passar o túnel que ainda hoje existe, por baixo da linha, junto à estação Coimbra-B, a sequencia de  carros era continua já em  1971/72 que nós brincávamos com a situação “Só aceito boleia em carro que tenha leitor de cassetes”.

Algumas boleias com história:

Boleia de Cernache do Bonjardim para Castelo Branco e as aventuras de um dia. Um camião carregado de tijolos, o motorista Sr. Adriano, bom conversador  disse-me só vou até …   … Sarzedas  (de Cast. Branco) ou Sobreira Formosa ou Taberna Seca não me lembro...Serve? Claro, depois continuo, disse eu. Lá seguimos pela antiga estrada de curva e contra curva, de vagar e devagarinho.

A certa altura já depois de Proença-a-Nova, ouve-se um barulho e diz o motorista com ar de poucos amigos:  Um furo! Acompanhado duns quantos atributos que não vou dizer aqui. Parou logo que foi possível e toca a mudar o pneu. Podem imaginar o que é trocar um pneu num camião carregado de tijolo. Hoje ninguém troca pneus em camiões...gostava de ver algumas motoristas. Coisas impossíveis! 

Bom, fiz os possíveis por dar a minha ajuda, mudou-se  o pneu seguimos viagem talvez com mais de meia hora de atraso. À frente numa tasca, bebemos um copo e lavamos as mãos. Antes de partirmos ele foi “ver qualquer coisa” lá atrás, com a dona da tasca, coisa rápida não mais de cinco minutos e voltamos à estrada. Já em andamento diz o motorista:

“Olhe, já vou passar em Castelo Branco, a porcaria do furo estragou-me os planos. “

“Certo, para mim tudo bem.” Era cedo, antes de almoço. Se quiser pode ir comigo a Silvares eu tenho que voltar por CB e deixo-o lá ficar, assim sempre vou se companhia. O meu “trabalho” em Castelo Branco também só começava à tardinha. Lá vou eu passear a Silvares...resultado acabei por ajudar a descarregar os tijolos um a um, não era como agora com paletes e monta cargas no caso desmonta cargas e o motorista também vergou a mola, também não era como agora. Agora os motorista estão ao volante nem saem à rua para não se constiparem e dizem: Eu sou motorista, e não ajudante.

Voltámos, fiquei em Castelo Branco. Por causa do furo o homem perdeu o “affaire” que tinha combinado e eu ganhei a boleia até onde queria.

Mais tarde estava eu na EN 1 frente às bombas da Shell em Pombal, um sitio privilegiado  para pedir boleia para Lisboa. Reparei que passou um citroen GS matricula espanhola, com um casal na casa dos trinta anos talvez, mas passou e não deu boleia. Passados cinco minutos vejo vir o mesmo carro em sentido contrario dá a volta junto às bombas e vira no sentido sul, pára junto a mim e diz “Vamos a Estoril  te puedes quedar en Lisboa, puedes entrar” . Aceitei mas fui a pensar no caso,  porque é que eles voltaram? Chegamos em frente ao mosteiro da Batalha e eles pararam o carro. Ainda havia por ali um espaço onde se podia estacionar, fora do alcatrão e podia-se descer a barreira e atravessar até ao convento. Pegaram maquina fotográfica “quiero tomar algunas fotos volveremos pronto” atravessaram a estrada desceram a barreira e deixaram-me dentro do carro. Eu ai desconfiei! De repente passaram-me muitas ideias pela cabeça...pelo sim pelo não, peguei no meu saquinho de lona, que tinha comprado na feira da ladra, onde transportava sempre as coisas mínimas que me faziam falta, coloquei-o ao ombro, sai do carro  e fiquei a uns cinco ou dez metro ao lado, a ver onde paravam as modas. Passados poucos minutos voltaram… disseram: “vamos”. E lá continuamos viagem. Deixaram-me no fim da 2ª circular, junto à Buraca, a cerca de um Km de casa. Despedi-me e agradeci com o meu “obrigadissimo”.

Outra altura, na rotunda do relógio, saída para 2ª circular com sequencia para o autoestrada. Na época havia o autoestrada do Estoril e este para norte, só até Vila Franca de Xira. Era de manhâ, suponho que sexta feira, vinha para casa, para Sarzedas. Parou junto a mim um carro com dois sarzedenses, atualmente já falecidos,  Sr. Afonso dos Reis e o Sr. Manuel Alves.

Apetecia-me dar pulos e gritar, mas claro não podia… Seria aquele  “Yiiiiieeees!” Boleia de Lisboa até casa.

 Em Vila Franca, pagaram a portagem na ponte, naturalmente,  que continuaria a ser paga durantes mais uns anos, seguem pela reta do Cabo  e tomaram a direção norte; era o melhor itinerário na altura porque pela N1 até Pombal  tinha muito transito e por Santarém a estrada estava muito esburacada.

Primeira paragem, Quinta da Alorna, entrada de Almeirim, o porta bagagens do carro    vinha cheio de “palhinhas” vazios. Encheram os garrafões na adega, pagaram e continuamos até a zona da praça de touros.

Vamos almoçar!

 Está certo, eu espero aqui à sombra, disse eu.

Não senhor, tu vens almoçar connosco. Bem...Eu tinha dinheiro para pagar o meu almoço, não teria para pagar três almoços. Se eu vou à boleia eu é que deveria pagar...

Fiquei “encostado”! Sem saber o que fazer.

Disse então: Eu pago o meu almoço!

Só pagamos no fim, disseram.

Agora vamos almoçar.

Lá fomos os três, e no fim não me deixaram pagar nada. Obrigado.

Voltámos ao carro, seguimos viagem até à saida de Almeirim. Paragem numa venda de melão. Os Senhores compraram melão até não haver sítio, por cima dos palhinhas, cheios de vinho no porta bagagens, por baixo dos bancos e acho que se eu não viesse lá ainda teriam trazido mais. 

Chegámos à Sarzedas sãos e salvos.

Boleia onde apanhei um susto. De Tomar para Lisboa. Um casal novo, talvez pouco mais velhos que eu, na casa dos vinte, um fiat 124 e a menina pendurada no pescoço dele que ia a conduzir, não fosse ele abrir a porta e sair! Seguiram pela Azinhaga, Reguengo do Alviela, Vale Figueira e depois tomaram a estrada nacional. Foi para mim a primeira vez que passei por esta estrada.

Depois do Reguengo, havia uma ponte, antiga que ainda lá está mas inutilizável, como muitas outras tinha uma elevação no centro que não deixava ver o outro lado e só havia espaço para um carro passar. Um pouco antes de entrar na dita ponte diz o rapaz para ela: “Vamos voar!” Ela largou-o mas colocou as mãos no tablier, ele acelerou o que pode,  de tal forma que fomos mesmo pelo ar e aterrámos do outro lado quase à saída da ponte. Eu encolhido no banco de trás, só pensei na sorte que tivemos em não vir outro carro em sentido contrário.

publicado por Sir do Vasco às 23:52

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