Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

08
Jan 20

Mais uma vez o Manuel Vicente conta no seu livro a história dos fojos dos lobos nas aldeias da serra do Gerês. Um fojo é uma espécie de poço fundo, um fosso, para onde eram encaminhados os lobos à frente dos batedores por entre os matagais ou onde se deixavam uma cabra ou ovelha velha sem valor que de noite, com os seus balidos atrairia um ou dois lobos. Estes não resistiam em saltar lá para dentro, não imaginando que seria impossível voltar a saltar para fora e portanto só de lá sairiam mortos pendurados pelas patas numa vara. Eram então levados para o largo da igreja. “No percurso, pelos povoados por onde passavam, não faltaria quem lhes oferecessem o seu tributo, em queijos e enchidos ou algum vinho, pela tranquilidade emprestada com o abate dos lobos”.

Não é do meu tempo que houvessem lobos na  Sarzedas, embora muitas histórias se ouviam acerca deles e dos seus ataques aos rebanhos nos finais do seculo XIX e principios do seculo XX.

Tavez real:

Um lobo terá lavado uma vez uma ovelha chamada "pintadinha" que respondia ao chamar do seu dono: Este sem poder fazer algo para salva-la chamava: "Pintadinha!" e ela respondia "Mé´´eéé" e o dono impotente dizia: "Lá vai ela, lá vai ela, na boca daquele ladrão!"

 Ou mais imaginária

Um velha foi à aldeia vizinha visitar a filha, pelo caminho apareceu-lhe um lobo que queria come-la. "Ò Sr. Lobo, não me coma agora que estou muito magrinha. Eu vou a uma festa a casa da minha filha e amanhã passo por aqui na volta, vou comer muito porque vai haver uma festa, virei então mais gordinha e come-me então! " O lobo aceitou e ficou à espera até ao outro dia. A velha quando chegou a casa da filha comeu e bebeu e  quando estava par vir embora contou o sucedido à filha "Não sei como hei-de fazer, porque o lobo está lá à espera para me comer".

"Não tem problema minha mãe". Respondeu a filha.

"Tem aqui esta cabaça quando chegar perto do sitio onde está o lobo meta-se dentro dela e relobe até passar por ele". Assim foi. Quando o lobo viu uma cabaça a rebolar, perguntou: "Ó cabacinha não viste por ai uma velhinha? A velha dentro da cabaça respondeu: "Nem velhinha nem velhão rebola, rebola cabacinha, rebola rebola cabação!"  E assim escapou de ser papada pelo Sr. Lobo.

 

Na Sarzedas há sessenta anos atrás as raposas por vezes atacavam em grande as capoeiras da aldeia. Quem não tinha as galinhas fechadas de noite estava sujeito a grandes perdas. Lembro-me um ano que as galinhas da tia Conceição das Sobreiras e da prima Dores, que normalmente traziam as galinhas soltas e não as fechavam durante a noite,  foram atacadas por uma raposa que comeu e levou. As raposas comiam e matavam todas as outras e levavam-nas, enterravam-nas para comer depois. Muitas vezes perdiam-lhe o sito. Nessa noite ao ouvirem as restantes cacarejar em alvoroço ter-se-ão levantado e corrido com a raposa. No entanto esta levou ainda algumas que foi enterrar na “Cova da Baralha”, actualmente onde é o quintal da Natalinha. Em casa de meus pais por vezes saltavam os muros e rondavam as capoeiras, sabíamos isso porque as galinhas entravam em alvoroço, embora normalmente estivessem fechadas.

Quem caçava uma raposa também vinha exibi-la publicamente pelas aldeias. Lembro-me, mais do que uma vez, que alguns homens da Sarzedas de S. Pedro vieram pelas ruas da Sarzedas do Vasco com uma raposa e uma bandeja na mão a pedir para raposa, como quem pedia para a festa dum santo. Quem queria dava… mas se lhes dessem um copo de vinho eles já ficavam contentes.

publicado por Sir do Vasco às 20:55

05
Jan 20

O meu colega e amigo, Manuel Fernandes Vicente, no seu livro Vento das Sete Serras conta histórias, lendas, usos e costumes do nosso Portugal, onde inclui também Os Neveiros do Coentral. Na página 218 conta uma aventura sua, com dois amigos aí há quarenta anos atrás, que eu vou resumir. Férias de Natal, mochilas às costas carregadas de conservas de atum e sardinha, estão por “trilhos indecifráveis” na serra do Gerês na véspera de Natal, tarde chuvosa em Montalegre. Acampam na margem do rio Homem onde tomaram banho no cachão nessa tarde de vésperas natalícias. “Éramos loucos, mas higiénicos…” Diz ele agora. Encontram-se com um eremita “que depois de muito insistirmos lá aceitou fazer a consoada connosco, com atum, batatas cozidas e pimentos assados.” Depois da ceia “...de imediato o enigmático barbudo se envolveu na capa e se pôs a caminho…” À noite ouviram o que supuseram ser lobos, pelo sim pelo não, a fogueira ficou bem acesa e fizeram sentinela à vez à porta da tenda “…não fosse o lobo também querer celebrar a quadra e cear-nos”. No dia seguinte, sem prendas no sapatinho, tomaram de novo o caminho mais ou menos aleatório. Com a noite a cair “…e sem poiso previsto para pernoitar, demos com um casal de sexagenários…   …e ofereceram-nos o que tinham”. A sopa da panela de ferro “soube-nos como manjar de príncipes…  ...e um palheiro com manjedoura, aquecido com duas vacas e alguns ovinos teria mais conforto que a apertada canadiana. Era o dia de Natal”.

A celebração dos solstícios é conhecida desde a antiguidade. Quase todos os povos os festejavam e muitos adoravam o Sol como um deus. Festas pagãs que anunciavam a chegada ou o renascer da Luz. Mantêm-se ainda em alguns países ou renasce em outros, este paganismo ou neopaganismo. Na Suécia celebra-se a chegada do Verão entre 20 e 25 de Junho, no sábado mais próximo. O midsummer com direito a dança, muita dança e canções à volta do mastro característico, enfeitado com flores naturais, coroas das mesmas flores  na cabeça e até competições desportivas. E depois, em família comilança, bebedeira, mais comilança, mais bebedeira, mais cantiga até adormecerem. É mais importante que o Natal.

As pessoas festejavam a fertilidade, associada à alegria das colheitas e da abundância. Faziam-se fogueiras com o objetivo de promover a sorte, saúde, expulsar doenças, e no caso de mulheres, ter um casamento e para abençoar as plantações e garantir boas colheitas. Mais tarde, à semelhança do que sucedeu com o Entrudo, a Igreja cristianizou essas festas pagãs e assim surgem as fogueiras de S. João e as fogueiras e madeiro de Natal. Dizia o meu avô Domingos, que na Sarzedas do Vasco antigamente era uso fazer baile e fazer fogueiras e também fachas e tochas que os rapazes passavam a correr também pelos campos (e não faziam incêndios).

Já não é do meu tempo haver fogueiras de S. João. E bailes só nas aldeias próximas.

Ao anoitecer do dia 24 de Junho, eu e os dois parentes da Balsa partimos em direção à Salaborda, é noite de S. João, pode ser que se lembrem de fazer um bailarico. Ao chegar à Salaborda Nova, não vislumbra qualquer comemoração nem do solstício nem do S. João. Rumámos à Salaborda Velha... a mesma coisa, não há jeito de nada. Vamos é ao Mosteiro, já que estamos aqui. No Mosteiro “nem chus, nem bus”. Resignados resolvemos voltar para casa. Entretanto surge a hipótese: “já que temos de subir, vamos por este lado e passamos pelo Coelhal”. Um diz mata ou outro diz esfola, toca a andar. Aí vêm eles pela margem esquerda da ribeira de Pera, serra acima. Caminho pedonal por meio do pinhal, mal defino, sabendo nós que podíamos embrenharmo-nos nos matagais da margem da ribeira…”em qualquer bifurcação temos que virar pela direita…” dizíamos nós.

Depois de boa caminhada, eram quase onze horas da noite, avistamos uma casa com pátio murado e uma luz de candeeiro a petróleo na mão de alguém que pouco depois, mais próximos, concluímos ser um homem.

“Boa noite!” dissemos nós.

“Quem é que lá está?” ouviu-se dentro do pátio. “Gente de paz” respondemos.” O senhor pode dizer-nos, onde estamos, que terra é esta? Entretanto o homem abre o portão do pátio. “Então estão perdidos? Hoje é noite de S. João, são rapazes à procura de baile!”, acrescentou. “É verdade! “ respondemos. “Vocês estão na Ameixoeira!” disse o Sr João. “E estamos longe do Coelhal?”

“Não, ao cimo desta estrada, viram à esquerda e o Coelhal é logo adiante”.

“Então obrigado!” Agradecemos nós. E preparávamo-nos para continuar a viagem. Mas o homem continuou: “Então, não querem um copo?” Houve uns segundos de pausa e hesitação. Entretanto já a esposa do senhor João estava no cimo da varanda com outra candeia na mão a inteirar-se do que se passava.

O Rogério responde: “Se o senhor o dá...” De imediato o homem virou-se para trás e disse: "Ó Celeste trás lá uns copos e a picheira”. Bebemos dois copos cada um e depois de alguns minutos de conversa, concluímos que eles conheciam os nossos familiares. Que Deus console suas almas, tal como aquele vinho nos consolou.

Agradecemos e continuámos.

Chegámos ao Coelhal, onde todos dormiam e nem sonhavam que três aventureiros queriam comemorar a noite de S. João.

"Bom...vamos passar pelo Vermelho e se não houver nada, descemos direito ao “munho” do Zé Bernardo". E assim foi, no Vermelho fechámos o circuito, sem dança nem contradança.

Era meia noite, de Verão, amena e com cheiro de hortas regadas, cheirava a milho regado. Atravessámos por um carreirito que saia do meio da aldeia, junto a um rego da água, que nos levaria ao caminho que descia para a Sarzedas...mas, junto do tal rego de água, já fora da aldeia estava uma cerejeira com cerejas maduras, miúdas mas maduras e doces e aí vão três “artistas” para cima da cerejeira e toca a comer cerejas e a reconfortar o estômago... e depois seguimos viagem...

 



publicado por Sir do Vasco às 21:16

23
Ago 19

 

Ontem tive uma conversa agradável com o amigo e parente Mário Nascimento. A meu pedido  fui esclarecido sobre algumas situações relacionadas com parentescos antigos. Sendo a minha trisavó Maria Rosa Helena Lopes, irmã de Maria do Carmo (Helena Lopes???) visavó do Mário. Eram seis irmãos, mais cinco meios irmãos. Nasceram na Balsa, tendo a Maria do Carmo vivido lá, na casa pertencente ao Dr. Rosendo. Nessa casa nasceu  o Padre Nascimento e provavelmente os seus irmãos, Manuel, Piedade e mais uma menina que terá falecido cedo. Depois vieram as curiosidades engraçadas. O único que ficou com o apelido Nascimento foi o José (Henriques do Nascimento) por ter nascido próximo do Natal. O seu irmão  Manuel Henriques dos Santos, avô do Mário, mais tarde teve problemas, devido ao nome igual ao de um individuo da Moita. Assim resolveu adotar o mesmo apelido do irmão para evitar confusões, passando a assinar Manuel Henriques do Nascimento.

O padre José Henriques do Nascimento foi reitor da paróquia de Castanheira de Pera mais de cinquenta anos, tendo celebrado a sua missa nova na capela da Sarzedas de S. Pedro em 1901 e celebrado as Bodas de Ouro sacerdotáis em 1951 como consta de uma lápide existente na capela.

Eu lembro-me do Padre Nascimento e lembro-me dos neus avós o cumprimentarem e tratarem-se por primos. Embora à época já fosse coadjuvado pelo padre  Arménio Marques.

A antiga capela foi destruida em 1973, com exceção do altar mor e da torre, embora  esta tenha sido alteada. O altar porque foi oferecido pelo Sr. Cipriano Lopes de Almeida e a torre pelo seu irmão Manuel Lopes de Almeida. Outras ofertas embora movéis, os antigos  bancos da capela mor, oferecidos pelo Sr. Manuel  de Oliveira  (Ti Oliveira) da Sarzedas do Vasco, foram retirados e não voltaram. No mesmo local e com a integração dos elementos que ficaram foi construida a atual capela, bastante maior.  Esta foi oferta do Sr. Albano Antunes Morgado. Se olharmos o altar de mármore, podemos concluir a altura e largura da capela mor antiga. O crucifixo que está por cima do altar mor, pendurado na parede, foi oferecido pelo Sr. Sá Simões de Almeida.

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publicado por Sir do Vasco às 14:39

07
Mar 19

Para quem tem dúvidas deixo aqui uma indicação aproximada da divisão dos concelhos de Castanheira e Pedrógão.

Não sei porquê os mapas militares e outros provavelmente "copiados" por estes, como o Google, estão errados. Devem existir ainda os mapas dos Serviços Geográficos e Cadastrais, mas não os conheço.

Os terrenos entre a linha verde dos mapas e a vermelha que fiz aproximadamente até onde sei, estão registados na freguesia de Castanheira (Agora com o pomposo nome de "Castanheira de Pera e Coentral" para facilitar).

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publicado por Sir do Vasco às 00:47

Conto conforme ouvi:   Conforme assiná-lo no mapa as principais saidas da Sarzedas do Vasco antigamente, eram estas. Na estrada que ligava à Alagôa, atualmente uma parte, no Torroal,  já não existe, foi ocupada com eucaliptos

Depois da fundação do concelho, os homens da aldeias, com pá, picareta e enchada fizeram, a olho e sem projeto o atual ramal rodoviário até à Melgachinha.

Em 1933 com a ajuda da Câmara Municipal fizeram uma mina de onde levaram água para dois fontenários, ainda hoje existentes, embora sem água da mina. A fonte de baixo estava, inicialmente, no meio do largo, mas tornava dificil a circulação das carroças, pelo que foi deslocada para onde atualmente se encontra, por isso a data lá inscrita é 1935.

A estrada que liga a Sarzedas de S. Pedro foi feita muito mais tarde, talvez 1958...59. Lembro-me disso. Na Ponte Melada passava-se no ribeiro em cima de passadeiras de pedra e os animais passavam por dentro de água.

Mais tarde ainda, 1967, foi alargada a estrada de ligação à Salaborda.

Quando Castanheira foi desanexada de Pedrógão em 1914, a Alagôa ficou integrada em Castanheira, sendo a divisão do concelho desde Melgachinha até ao alto da serra da Sra do Pranto onde ainda hoje se encontram Castanheira, Figueiró e Pedrógão. Os habitantes de Alagôa reclamaram alegando que ficavam muito longe da freguesia.

Vila Facaia era muito mais perto e comparativamente, tinha grande desenvolvimento à época.

Foi-lhes aceite a reclamação e os concelhos ficaram com o recorte de puzzle que hoje temos.

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publicado por Sir do Vasco às 00:32

26
Set 18
Assim de faziam tábuas antigamente. Isto é uma escultura representativa da profissão de serrador. O tronco que está do lado esquerdo com dois apoios chama-se "burra". O do lado direito é apoiado em dois "pontaletes". É este tronco que se corta em tábuas. O serrador que está por baixo trabalha de joelhos e deverá usar boina ou chapéu para que não lhe caia serradura nos olhos. O tronco a serrar era atado com uma corda ao "focinho" da "burra"  para que não saisse do sítio. Este tronco era previamente aparelhado com machado de modo a perder a forma cilindrica e ficar mais prismático. Também eram marcadas as linhas de serragem com um fio molhado em ocre diluido, esticado de ponta a ponta, um pequeno esticão no meio da corda e ficava marcada a linha. Ainda me lembro de ver o meu avô Zé Simões, do Casal d'Além, a trabalhar nisto, na Sarzedas do Vasco, com o Ti João Carvalho (sacristão) do Vitoiral (agora mais conhecido por Souto Fundeiro).  Onde eu gostaria de ter estado era na posição do serrador superior,  mas nunca me deixaram. Não era fácil, o equilibrio em cima do toro ao mesmo tempo que tinha de se puxar e empurrar a serra. Curiosamente guardo a serra que foi do meu avô, como uma relíquia. Até gostaria de a ver exposta, quando for criado o museu rural de Padrógão Grande, visto que ele era deste concelho...!!!!!!!!!??????
 
 
 

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publicado por Sir do Vasco às 00:17

06
Set 18

Não passará pela cabeça dum Encarregado de Educação da maioria dos alunos que frequentam actualmente as nossas escolas que fosse servido ao seu Educando, na cantina da escola, um lanche composto de uma ou duas cenouras, um ou dois tomates e umas rodelas de pepino. Nos países nórdicos isso é um hábito enraizado e se algum E.E. manda um bolo ou bolacha, chocolate nem pensar, ao seu educando, o mesmo é-lhe “confiscado” e devolvido para casa.

A minha esposa deparou-se com estes hábito há mais de vinte anos quando fez o primeiro intercâmbio entre escolas europeias. A colega que a recebeu na Dinamarca, deu-lhe o “almoço” dentro dum saquinho para levar para a escola: Um tomate, duas cenouras e umas rodelas de pepino, com uma fatia de pão preto. Tudo bem! Isto ampara até ao almoço. Só que o almoço não apareceu e teve de se contentar com aquele ”almoço”. Um dia, dois dias, três dias e nada mudou, pelo que teve que “aportuguesar”, valendo-se dos supermercados mais próximos.

Um casal conhecido com filhos foi uns dias a Itália. E porque quando se vai passear nem sempre se pode perder tempo em restaurantes e porque no estrangeiro, dum modo geral os restaurantes são pouco compatíveis com as economias de alguns portugueses, foram procurando matar a fome com sandochas de queijo e fiambre. Não sendo de total agrado de todos mas especialmente do marido, que reclamava constantemente. Quando preparavam uma dessas refeições, num banco do jardim, repararam que outro casal, também com filhos, fazia o mesmo ali perto, só que o almoço deles era pepino com pão. Ao ver aquilo o nosso amigo portuga virou-se para a esposa e disse: “Somos ricos! As nossas sandochas são uma maravilha. Querida, dá-me cá mais uma!”

Reportando-me aos anos sessenta do século passado, entre os meus sete e dezassete anos de idade, na Sarzedas do Vasco, só se aprimorava a merenda quando haviam pessoas de fora a trabalhar em casa dum patrão qualquer. Como já referi em posts anteriores era hábito o patrão dar a merenda. Em situação dita de todos os dias, as pessoas merendavam conforme lhe dava mais jeito e sem um ritual rigoroso de horário para cumprir.

Os restos do almoço, de hoje ou de ontem, pão, normalmente broa, com azeitonas era um requinte. Pepino cortado em fatias ao comprido, com sal. Nada mau. Eu comi muitas vezes. Cebola com pão. Já não sabia tão bem, mas também comi. Cenouras eram pouco cultivadas, pelo que também pouco consumidas. Tomate com ou sem sal, não comia na época. O adocicado do tomate não me sabia bem. Tudo isto de produção própria. Ia-se ao quintal colhia-se e comia-se. Não se comprava mas também não havia quem vendesse. Isto na época... porque fora dela__não havia não se consumia… bom agora os mais novos não sabem quando é a época da maioria dos produtos, tal como não sabem que as galinhas é que põem os ovos…

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Um ocasião fui “obrigado” a comer uma fatia ou duas de tomate com sal, já com dezoito ou dezanove anos. Estava no estabelecimento do Sr. António Rosa, em Vila Facaia, quando chegou o carteiro da sua habitual volta, que por sinal era o meu primo Anacleto. Fez o trabalho que devia, acondicionou as cartas que recolhera dentro da mala, preencheu alguns papéis, porque dai a pouco viria o carro do correio que levaria tudo para a central em Coimbra. Depois disto convidou-me para beber um copo, literalmente um copo de vinho. O Sr. Rosa acompanhou-nos também. Entretanto chega o Sr. Manuel Dinis e paga segunda rodada. Por volta das seis da tarde digamos que o almoço já tinha ido e o vinho estava a cair no fundo do estomago. Eu que não andava derrubado com o peso do dinheiro, mas para quatro copos de vinho ainda tinha, pelo que não querendo ficar mal, paguei terceira volta, mas custou-me mais beber o vinho do que pagá-lo. O Sr. Rosa embora sendo o dono da taberna oferece também o quarto copo. Apesar deles estarem habituados, provavelmente também tinham pouca cama para o vinho, pelo que antes de oferecer a rodada, o Sr. Rosa pegou num ou dois tomates madurinhos, cortou-os aos gomos e pulverizou com sal grosso e distribuiu-os por nós. Eu não disse que não queria o bocado do tomate por vergonha, mas acho que o engoli duma só vez sem mastigar. Hoje sou amante duma boa salada de tomate, mas por incrível que parece foi na tropa que comecei a comer tomate.

Nunca fui amante de grandes leituras. A primeira revista que coleccionei chamava-se “Mundo da Canção” em 1970. Encadernei-as mais tarde e ainda as tenho. Li alguns romances, normalmente depois de recomendados, já não os conto pelos dedos.

Terminei “Cebola crua com sal e broa” e ao seu autor, Miguel Sousa Tavares, devo este desabafo. Nunca fui grande apreciador das suas opiniões e com menos apreço fiquei quando ele fez críticas aos professores tendo na altura demonstrado alguma falha de conhecimento da situação, vindo a sofrer fortes críticas da classe.

Não imaginaria nunca que ele tivesse lanchado dias seguidos cebola crua com sal e broa. As “voltinhas” que os pais precisaram de fazer para que nada faltasse! Filho de quem de quem foi, teve todas e muitas portas abertas. A leitura do seu livro não mudou muito a minha opinião, mas admiro a coragem que teve em fechar essas mesmas portas, quando não se sentia bem.

Leitura recomendada sobretudo a Encarregados de Educação que  reclamam por aparecer uma lagarta na salada, mas não sabem ou não querem saber, que muitos caixotes do lixo nas escolas enchem-se com fruta, bolos e sandes deitados fora pelos alunos.

publicado por Sir do Vasco às 19:14

17
Jun 18

Hoje todos juntos em Sarzedas do Vasco, no largo da fonte de baixo.

Quase todos os moradores.

Alguns sarzedenses, não residentes.

Alguns descendentes.

Passa um ano sobre o trágico fogo de 17 de junho de 2017.

Fogo como nunca se viu.

O pior que tinhamos tido, foi no final dos anos sessenta, uns nove ou dez focos de incendios no mesmo dia, os cerca de 100 habitantes à época facilmente dominaram.

O ano passado não foi assim.

Consumiu tudo por onde passou.

Ninguém lhe pode fazer frente.

Vitimou cinco dos nossos.

No conjunto com Sarzedas de S. Pedro e Balsa foram 11.

O 11 parece ser numero fatídico. Mas só Nodeirinho "conta".

É sobretudo pelos nossos que aqui estivemos.

Recordá-los, dizermos que temos pena que nos tenham deixado.

Não havia arco de S. João na fonte. Ainda não é S. João!.

A Natalinha e a Fátima tiveram a ideia.

Ficou, no poial da fonte, uma escultura simbólica, alusiva aos que partiram.

A Fátima leu uma prece, repositora de alguma paz.

Para todos os presentes e eventualmente alguns que gostaria de estar mas não puderam.

Os outros, afinal não fizeram falta, tal como as TVs.

 

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publicado por Sir do Vasco às 22:23

21
Mar 18

DESCENDENTE DA SARZEDAS DO VASCO

PADRE CARLOS AUGUSTO

Recebemos do Sr. Manuel Tomaz  a  triste notícia deste falecimento.

Era eu rapaz de escola primária quando este Senhor, já padre à época, esteve uns dias em casa dos seus familiares: a avó, Ti Rosa da Quelha como era conhecida e/ou da tia, a Ti Dialina, mãe deste Sr Manuel Tomaz, da Senhora Aurora, do Sr. Salvador e do Sr Carlos (falecido). Este Sr. Padre Carlos era primo direito destes últimos. Paz à sua alma.

Transcrevo:

"Venho dar-lhe a infeliz notícia do falecimento do meu primo Padre Carlos Augusto (12 de Dezembro de 1942 - 19 de Março de 2018).
Sofria de entre outros problemas, de um linfoma no sangue. Porém, viria a falecer devido a um "volvo no intestino", que foi fatal em poucas horas após ter dado entrada no hospital.
Nasceu em Lisboa. Filho único do meu tio Carlos, irmão da minha mãe, e de Dárida, natural de Vila Flor, Bragança.
Após a instrução primária frequentou os Seminários de Santarém, Almada e Olivais, onde se ordenou.
Pertenceu às Paróquias do Espírito Santo (Olaias) Lisboa e São Nicolau (Baixa de Lisboa). Exerceu também funções nos serviços de notariado do Patriarcado de Lisboa. Há já algum tempo, após a reforma, morava numa residência do Patriarcado, na avenida 5 de Outubro."

Junto foto gentilmente cedida pelo Sr Manuel, onde se apresentam o Padre Carlos com seus pais.

TIO CARLOS. TIA DARIDA E PRIMO CARLOS AUGUSTO 001.

 

 

publicado por Sir do Vasco às 16:51

17
Fev 18

Daqui a sessenta ou setenta anos, se não voltar a arder poderá haver pinheiros como estes na Sarzedas. Pinheiros cortados no Torroal depois do incêndio de 17 de junho de 2017. Deveriam ser dos mais antigos existentes nos limites da aldeia. Nota-se neles a cicatrização interior das feridas provocadas pela resinagem ainda do tempo em eram feitas pelo método antigo. A procura da seiva era feita no lenho. Atualmente e feita na casca e estimulada com ácido.

 

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publicado por Sir do Vasco às 00:17

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