Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

04
Nov 09

 

É tempo de fazer a raspa.

O Verão terminou e os pinheiros já não exsudam de modo rentável. A resina já não corre, diz-se.

Em Março ou Abril voltaremos a “picar” e assim iniciaremos nova  exploração durante o tempo quente.

Durante muitos anos a exploração de resina e de madeiras foram  actividades desenvolvidas pelos homens da aldeia.

                         

Não sendo o pinheiro uma espécie autóctone, foi durante o século vinte a árvore que mais cresceu nas redondezas. As espécies autóctones parecem ser os castanheiros e os carvalhos, um ou outro sobreiro. Como já referimos em outro post, os castanheiros forma desaparecendo a partir dos finais do século XIX por causa da moléstia e os carvalhos foram sendo cortados para madeira. Ficaram os nomes Souto da Fonte, Soutinho, Vale das Carvalhas, Carvalheira.

Quem teve oportunidade de consultar os arquivos de registo predial das penúltimas avaliações de propriedade, que se realizaram nos finais do século XIX, pode ler nos registos da maioria dos prédios rústicos não cultiváveis (onde nos anos setenta do Século XX  existiam pinheiros e já alguns eucaliptos) descrições do tipo: “Terra de mato e castanheiros, um pinheiro e uma carvalha”. As árvores em menor quantidade tinham direito a descrição quantitativa. Parece  assim, que o pinheiro foi crescendo à medida que os castanheiros e carvalhas foram desaparecendo. Em certas zonas terão sido semeados, noutras o nascimento terá sido espontâneo.

Nos anos setenta do século passado foram efectuadas novas avaliações. Em muitas propriedades ficaram registados pinheiros, pouco tempo depois substituídos por eucaliptos. Embora ainda existam alguns pinhais, a recente denominação de “Zona do Pinhal” parece assim um pouco tardia. Por cá, agora e infelizmente, é mais eucaliptal!

Tendo sido o pinheiro bravo o principal “habitante florestal” desta região, durante o século XX, foi oportuno fazer a exploração da resina. Com provável inicio nos anos trinta, (inicialmente regulamentada pelo Decreto-Lei n.º 28492, de 19 de Fevereiro de 1938) , reduziu significativamente nos anos oitenta, devido aos fogos florestais,  à menor procura do produto e também à falta de mão de obra disponível.

     

 

As primeiras referências à resinagem são do séc X na zona de Leiria, a fim de obter o pez para as calafetagens.

No sitio que referimos abaixo, diz-se que Bernardino José Gomes iniciou em 1857 no Pinhal de Leiria a  resinagem do pinheiro em pé.  Faziam-se entalhes muito profundos no lenho e esperava-se  que a seiva exsudasse. Foi conhecido pelo "sistema português".

A partir dos anos vinte foi substituído pelo "sistema francês". As feridas eram menos profundas mas mais produtivas.

Em 1950 inicia-se a resinagem "à americana", resinagem química.

Conclui-se ser melhor sistema retirar a seiva que desce pela casca, seiva elaborada. Assim alterou-se o modo de fazer a “ferida” ou “sangria” e passou a retirar-se um pouco de casca, de quinze em quinze dias, e fazer-se a estimulação química com ácido.

Os pinheiros capazes de serem sangrados devem ter um diâmetro aproximado de 30 cm à altura do peito dum homem médio. Não sabemos com rigor as medidas a que deve obedecer uma sangria, contudo a largura ronda os 10 ou 12 cm e a altura os 40 ou 50 cm. A “renova” (retirar da casca, cerca de dois centímetros) deve ser feita na horizontal, embora quando a sangria é a última da fila o resineiro tenha dificuldade em chegar alto e começa a fazê-la na diagonal. Normalmente um pinheiro leva quatro filas de quatro sangrias o que perfaz 16 anos. Depois deste tempo já as primeiras quatro estão encarnadas e haverá espaço para começar nova fila.

Sitios relacionados :

 http://www.afn.min-agricultura.pt/portal/outros/mediateca/resource/ficheiros/SectorResina-7MB.pdf

 http://floresta.cienciaviva.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=80&Itemid=1

 

Actualmente no pinhal de Leiria, próximo da Marinha Grande, vêm-se por vezes quatro ou cinco sangrias em simultâneo, ou seja ao fim de quatro anos o pinheiro levou as 16 ou 20 sangrias. Chama-se a isto “dar à morte” os pinheiros. Os pinheiros são totalmente "esvaziados" de seiva e de seguida são abatidos.

Quando o tempo arrefece as sangrias estão com o tamanho permitido e a seiva deixa realmente de correr. É tempo de aproveitar os restos que secaram. Coloca-se uma serapilheira junto ao pé do pinheiro para que sobre ela caiam os pedaços de resina seco e faz-se a raspa da ferida com um  instrumento chamado raspadeira.

Os resineiros quando terminavam a raspa, consideravam o fim da safra  e comemoravam com um magusto e a respectiva água-pé.

As fábricas adequadas transformavam a resina nos seus derivados, que por sua vez iam para outras fábricas onde recebiam mais transformações e derivavam em outros produtos. Fazia-se exportação de resina transformada.

Existiu um estaleiro de barris de resina entre o cemitério de Sarzedas de S. Pedro e a Ervideira, na parte interior da curva mais apertada, onde actualmente existe  um eucaliptal.

Existiu uma fábrica de transformação de resina, entre a Valinha Fontinha e o Ramal da Moita. As pessoas mais idosas conhecem o sitio exactamente por "Fábrica da Resina". Também em Venda da Gaita e Pedrógão Grande, tendo esta laborado até aos anos oitenta.

 

Picar: colocar a bica metálica e o suporte do caco que receberá  a resina.

Bica: pedaço de chapa de zinco cortado de modo curvo, que se crava no pinheiro e serve para que por ela escorra a resina para dentro do caco.

Caco: púcaro de barro mais tarde substituido por pucaro de plástico.

Cavilha: suporte de madeira que se espetava no tronco do pinheiro para segurar o caco. Mais tarde substituida por uma espécie de prego fino e comprido.

Actualmente não se usa nenhum destes acessórios.

Utilizam-se sacos de plástico que se agrafam ao pinheiro e que na altura de colher se arrancam directamente para dentro do caldeiro.

Colher: retirar a resina do púcaro para dentro de um caldeiro próprio , com ajuda de uma espátula.

Renovar: fazer nova incisão, retirando mais um pouco de casca e estimulando com ácido

FOTOS: 

             - Pinhal com sangrias

            - Faxina

            - Ferida "à americana"

            - Recolha da resina em púcaro de plástico

            - Recolha de resina com saco de plástico, a partir de 1974

 

 

 

 

 

 
 

 

publicado por Sir do Vasco às 00:27

4 comentários:
Castrª de Pera. 06-11-2009
Bom dia.`Foi com bastante satisfação que encontrei o seu Blog e me deparei com algo simples, com fundamento e com HISTÓRIA. :)
Tem sido um prazer ler os textos que aqui coloca, até porque a HISTÓRIA das nossas localidades, Aldeias, não devem nunca ser esquecidas.
Esse tem sido, pelo que li até hoje, um excelente trabalho da sua parte.
envio-lhe um abraço de amizade e de incentivo.
Não esmoreça na sua 'aposta' em dar a conhecer o que de melhor existe nas Sarzedas!
Um Abraço sincero,
Filipe Lopo
http://castanheiraemnoticia.blogs.sapo.pt/
Filipe Lopo a 6 de Novembro de 2009 às 08:48

Caro Filipe Lopo:
Peço desculpa não ter respondido há mais tempo, não uso este mail no dia a dia e por tal não vi de imediato o seu comentário.
Agradeço o facto de o ter feito e do incentivo que me dá para continuar.
Como costumo dizer isto é para ir fazendo... quando me lembro e quando tenho tempo.
Iniciei com o arco de S. João porque julguei oportuno publicar po pensar que actualmente a juventude não sabe que existiram estas tradições. Depois, durante o ano, conforme a época, foram-me sugindo outros temas. Alguns com a nostalgia que dizem começar a aparecer com o avançar da idade.
Jungo que não temos o prazer de nos conhecermos pessoalmente, um dia qualquer poderá acontecer. Estudei aí no ex Externato S. Domingos e por aí estão alguns dos ex colegas.
Conheço algum do seu trabalho fotográfico e jornalistico pela internet e pelos jornais da região. Um trabalho já longo, interessante e também ele merecedor de parabéns e de incentivo.
Boa continuação.
Obrigado pelo seu interesse.
Um abraço.
Armando Eiras
Sir do Vasco a 17 de Novembro de 2009 às 22:49

Armandito Olá! Sou eu sou, visito sempre que posso o teu espaço está cada

vez mais agradável é didático recreativo identifico-me com ele e acredito que

o vais transformar mais tarde em algo especial, obrigado pelo teu empenho.

Sugestão,queres contar quem cuidava os jardins na escola no nosso tempo

Quem sabe se não virá a dar frutos? beijos F.S.H.
Maria F.S.H. a 9 de Março de 2010 às 19:38

Olá!
Obrigado pelo teu comentário.
Começam a aparecer sugestões várias. Deves ter visto uma foto que me enviou o Manuel Tomaz, irmão da Ti Aurora de 1944 onde estão as tuas irmãs Conceição e Leopoldina... Interessante.
Antigamente os alunos trabalhavam em vários frentes ... ... na Escola e fora dela... ... esses continuam hoje a "segurar" as calças.
Actualmente... ?? ...
Eu estive numa escola, aí para os lados de Alcantara, onde se gastaram 30000 contos, ainda não havia €, a fazer os jardins e foi dificil convencer os alunos que não eram para pisar, mas sim para manter.
Beijinhos
Armando
Sir do Vasco a 11 de Março de 2010 às 00:58

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