Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

25
Nov 09
A FEIRA DE SANTA CATARINA
 
 
Tivemos hoje o prazer de percorrer as ruas de Vila Facaia em dia de feira de Santa Catarina. (Santa Catarina de Alexandria).
Há muitos anos que não o faziamos.  Parece haver muitos mais vendedores e muito menos compradores. O melhor que vimos foram os amigos e conhecidos.
   
 
Todos os anos no dia 25 de Novembro, se realiza esta feira. Vila Facaia, freguesia limítrofe de Castanheira de Pêra, sempre teve grande influência nas gentes do Sul deste Concelho.  A situação geográfica de proximidade das aldeias, a boa acessibilidade, facilitaram essas relações e surgiram os casamentos, as trocas comerciais e de mão de obra.
     
À feira anual de Santa Catarina iam gentes de todas as redondezas. Era a oportunidade de comprar o que fazia falta: vestuário, calçado, utensílos vários, etc. Ferramentas de ferro forjado, sem intermediários. Os próprios ferreiros (muitos deles da Sertã) vinham vender as peças por eles fabricadas: enxadas, sachos, podoas, bisagudas, foices, machados, ancinhos, forquilhas, etc.
 
Gado! Esta feira vendia gado, especialmente gado suíno. Era uma espécie de "imagem de marca" da feira. Ia-se à feira vender um porco gordo e comprar o “leitaneco” que seria engordado até daí a um ano, quando estaria pronto para a matança. Havia quem comprava mais que um. Se conseguisse engordá-los todos, eventualmente matava um para seu consumo e vendia os outros. Temos uma longínqua lembrança desses negócios, do regatear dos preços entre as partes, da justificação de qualidade por parte dos vendedores e das dúvidas dos compradores. O mais "interessante" era levar o leitão para casa, a pé, até à Sarzedas do Vasco, Sarzedas de S. Pedro, Balsa e mesmo até à Moita. Pela serra do Vale da Borra acima, o leitão atado com uma corda  pela perna traseira , não fosse ao bicho dar vontade de fugir, uma pessoa na frente dele com um punhado de milho dentro duma taleiga ia deitando alguns bagos para o chão.  Reco! Reco! Toma! Vá! Toma lá! Anda! Reco! Reco! Com esta lenga lenga, lá se ia motivando o entusiasmo do animal para que andasse mais depressa. Caso não resultasse e ele começasse a demonstrar cansaço e não andasse, era levado ao colo, às costa ou dentro dum saco. A viagem inversa, do porco gordo para vender na feira também acontecia. Imaginem um porco gordo, criado em cativeiro, a fazer uns kilómetros a pé. A vida era difícil! Para as pessoas e para o porco. Se o animal asneasse e não quisesse andar? Não podia ir ao colo como o leitão. Tinham de ir pedir a alguém que tivesse um burro com carroça.
 
Nesta feira, há muitos anos foram proibidas as vendas de gado, dizem que por causa de evitar a proliferação de “moléstias”.
(De qualquer forma foi mais uma achega (???) ao desincentivo da produção/criação doméstica. Não compreendemos como numas feiras é proibido noutras é permitido. Actualmente é permitido a venda de gado de vários espécies, por exemplo feira de Santa Catarina em Celorico de Basto, feira dos vinte e nove (todos os dias vinte e nove) em Monte Redondo, Leiria.)
 
Era "obrigatório"  comer sardinha assada com broa e beber água-pé, na feira de Santa Catarina! Ainda agora se diz quando a sardinha é boa, grande e gorda: “parece sardinha da Santa Catarina”. É de facto a altura do ano em que a sardinha é melhor. A pesca daqui em diante entrará no defeso e toda a sardinha virá salgada.
Actualmente vem congelada!
 
Vila Facaia é oficialmente, Vila Facaia. Popularmente há quem lhe chama Santa Catarina. No entanto, os antigos conheciam Santa Catarina da igreja para cima até  ao antigo cemitério, que actualmente é jardim e Vila Facaia da igreja para baixo, até à entrada de Pé da Lomba.
 
 
 
SANTA CATARINA DE ALEXANDRIA
 
Diz-se que nasceu em Alexandria no seio de uma família nobre e versada nas ciências, provavelmente no século IV.
Ela era, a mais bonita e a mais sábia das raparigas de todo o Império. Anunciou que desejava casar-se, contanto que fosse com um príncipe tão sábio e tão belo como ela.
 O eremita Ananias disse-lhe um dia "Será a Virgem Maria que te procurará o noivo sonhado”. A Virgem Maria aparece de facto a Catarina na noite seguinte, trazendo o Menino Jesus pela mão. Mas o orgulho de Catarina terá desagradado a Jesus, pelo que Ananias teve de educá-la na fé e baptizá-la. Tornou-se então humilde e sendo do agrado de Jesus deu-se o “casamento místico de Santa Catarina com Jesus”
O Imperador Maxêncio tentou, seduzi-la pedindo-a em casamento; ela recusou, respondendo que já estava casada com Cristo, o que lhe valeu a perseguição.
Passando o Imperador Maxêncio por Alexandria, ela foi  repreendê-lo de perseguir os cristãos, provando-lhe ao mesmo tempo a falsidade da religião pagã. Incapaz de responder, Maxêncio reuniu, para a confundir, os 50 melhores filósofos da província. Ela confundiu-os a todos até ao último, e conseguiu convertê-los.
O Imperador mandou-os queimar vivos, assim como à sua mulher Augusta, ao ajudante de campo Porfírio e a duzentos oficiais que, depois de ouvirem Catarina, se tinham proclamado cristãos.
Condenada a morrer na roda dentada, Catarina destruiu o instrumento de tortura apenas com um toque da sua mão, o que levou o imperador a mandar que lhe cortassem a cabeça.
A igreja matriz de Vila Facaia, tem no seu teto a vida da Santa representada em várias pinturas.
 É a protectora das jovens solteiras e das estudantes. Sendo a roda dentada um ícone emblemático da Santa, também os mecânicos se puseram sob o seu patronato. Como Santa Catarina triunfou junto dos sábios de Maximino pela sua eloquência, também os teólogos, filósofos e oradores intercedem pela sua boa influência para os seus estudos, escritos ou discursos.
 

FOTOS:  - Imagem de Santa Catarina - Igreja Matriz de Vila Facaia- Igreja de Santa Catarina

               - Feira da Santa Catarina e Capela de S. João - Feira de Santa Catarina - Jardim

                                

 

publicado por Sir do Vasco às 18:44

04
Nov 09

 

É tempo de fazer a raspa.

O Verão terminou e os pinheiros já não exsudam de modo rentável. A resina já não corre, diz-se.

Em Março ou Abril voltaremos a “picar” e assim iniciaremos nova  exploração durante o tempo quente.

Durante muitos anos a exploração de resina e de madeiras foram  actividades desenvolvidas pelos homens da aldeia.

                         

Não sendo o pinheiro uma espécie autóctone, foi durante o século vinte a árvore que mais cresceu nas redondezas. As espécies autóctones parecem ser os castanheiros e os carvalhos, um ou outro sobreiro. Como já referimos em outro post, os castanheiros forma desaparecendo a partir dos finais do século XIX por causa da moléstia e os carvalhos foram sendo cortados para madeira. Ficaram os nomes Souto da Fonte, Soutinho, Vale das Carvalhas, Carvalheira.

Quem teve oportunidade de consultar os arquivos de registo predial das penúltimas avaliações de propriedade, que se realizaram nos finais do século XIX, pode ler nos registos da maioria dos prédios rústicos não cultiváveis (onde nos anos setenta do Século XX  existiam pinheiros e já alguns eucaliptos) descrições do tipo: “Terra de mato e castanheiros, um pinheiro e uma carvalha”. As árvores em menor quantidade tinham direito a descrição quantitativa. Parece  assim, que o pinheiro foi crescendo à medida que os castanheiros e carvalhas foram desaparecendo. Em certas zonas terão sido semeados, noutras o nascimento terá sido espontâneo.

Nos anos setenta do século passado foram efectuadas novas avaliações. Em muitas propriedades ficaram registados pinheiros, pouco tempo depois substituídos por eucaliptos. Embora ainda existam alguns pinhais, a recente denominação de “Zona do Pinhal” parece assim um pouco tardia. Por cá, agora e infelizmente, é mais eucaliptal!

Tendo sido o pinheiro bravo o principal “habitante florestal” desta região, durante o século XX, foi oportuno fazer a exploração da resina. Com provável inicio nos anos trinta, (inicialmente regulamentada pelo Decreto-Lei n.º 28492, de 19 de Fevereiro de 1938) , reduziu significativamente nos anos oitenta, devido aos fogos florestais,  à menor procura do produto e também à falta de mão de obra disponível.

     

 

As primeiras referências à resinagem são do séc X na zona de Leiria, a fim de obter o pez para as calafetagens.

No sitio que referimos abaixo, diz-se que Bernardino José Gomes iniciou em 1857 no Pinhal de Leiria a  resinagem do pinheiro em pé.  Faziam-se entalhes muito profundos no lenho e esperava-se  que a seiva exsudasse. Foi conhecido pelo "sistema português".

A partir dos anos vinte foi substituído pelo "sistema francês". As feridas eram menos profundas mas mais produtivas.

Em 1950 inicia-se a resinagem "à americana", resinagem química.

Conclui-se ser melhor sistema retirar a seiva que desce pela casca, seiva elaborada. Assim alterou-se o modo de fazer a “ferida” ou “sangria” e passou a retirar-se um pouco de casca, de quinze em quinze dias, e fazer-se a estimulação química com ácido.

Os pinheiros capazes de serem sangrados devem ter um diâmetro aproximado de 30 cm à altura do peito dum homem médio. Não sabemos com rigor as medidas a que deve obedecer uma sangria, contudo a largura ronda os 10 ou 12 cm e a altura os 40 ou 50 cm. A “renova” (retirar da casca, cerca de dois centímetros) deve ser feita na horizontal, embora quando a sangria é a última da fila o resineiro tenha dificuldade em chegar alto e começa a fazê-la na diagonal. Normalmente um pinheiro leva quatro filas de quatro sangrias o que perfaz 16 anos. Depois deste tempo já as primeiras quatro estão encarnadas e haverá espaço para começar nova fila.

Sitios relacionados :

 http://www.afn.min-agricultura.pt/portal/outros/mediateca/resource/ficheiros/SectorResina-7MB.pdf

 http://floresta.cienciaviva.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=80&Itemid=1

 

Actualmente no pinhal de Leiria, próximo da Marinha Grande, vêm-se por vezes quatro ou cinco sangrias em simultâneo, ou seja ao fim de quatro anos o pinheiro levou as 16 ou 20 sangrias. Chama-se a isto “dar à morte” os pinheiros. Os pinheiros são totalmente "esvaziados" de seiva e de seguida são abatidos.

Quando o tempo arrefece as sangrias estão com o tamanho permitido e a seiva deixa realmente de correr. É tempo de aproveitar os restos que secaram. Coloca-se uma serapilheira junto ao pé do pinheiro para que sobre ela caiam os pedaços de resina seco e faz-se a raspa da ferida com um  instrumento chamado raspadeira.

Os resineiros quando terminavam a raspa, consideravam o fim da safra  e comemoravam com um magusto e a respectiva água-pé.

As fábricas adequadas transformavam a resina nos seus derivados, que por sua vez iam para outras fábricas onde recebiam mais transformações e derivavam em outros produtos. Fazia-se exportação de resina transformada.

Existiu um estaleiro de barris de resina entre o cemitério de Sarzedas de S. Pedro e a Ervideira, na parte interior da curva mais apertada, onde actualmente existe  um eucaliptal.

Existiu uma fábrica de transformação de resina, entre a Valinha Fontinha e o Ramal da Moita. As pessoas mais idosas conhecem o sitio exactamente por "Fábrica da Resina". Também em Venda da Gaita e Pedrógão Grande, tendo esta laborado até aos anos oitenta.

 

Picar: colocar a bica metálica e o suporte do caco que receberá  a resina.

Bica: pedaço de chapa de zinco cortado de modo curvo, que se crava no pinheiro e serve para que por ela escorra a resina para dentro do caco.

Caco: púcaro de barro mais tarde substituido por pucaro de plástico.

Cavilha: suporte de madeira que se espetava no tronco do pinheiro para segurar o caco. Mais tarde substituida por uma espécie de prego fino e comprido.

Actualmente não se usa nenhum destes acessórios.

Utilizam-se sacos de plástico que se agrafam ao pinheiro e que na altura de colher se arrancam directamente para dentro do caldeiro.

Colher: retirar a resina do púcaro para dentro de um caldeiro próprio , com ajuda de uma espátula.

Renovar: fazer nova incisão, retirando mais um pouco de casca e estimulando com ácido

FOTOS: 

             - Pinhal com sangrias

            - Faxina

            - Ferida "à americana"

            - Recolha da resina em púcaro de plástico

            - Recolha de resina com saco de plástico, a partir de 1974

 

 

 

 

 

 
 

 

publicado por Sir do Vasco às 00:27

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