Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

06
Nov 10

 

O MAGUSTO

Está calor!  Dizem que é o Verão de S. Martinho, “ um dia e um bocadinho”. Mas o clima está alterado, há dias esteve frio e até nevou na Serra da Estrela, esta semana, já lá vão muitos dias de calor.

Aqui pelo Ribatejo o S. Martinho é “rei” na Golegã (além do cavalo), a 11 de Novembro, dia em que é venerado e nos fins de semana antes e depois.

Castanhas e água-pé, que por aqui não tem gosto como tinha a que se fazia na Sarzedas. A bebida que por estas bandas  dizem ser água-pé, na Sarzedas era conhecida por vinho palheto. Um vinho de cor “rosé” e tão alcoólico como outro qualquer. Não vamos discutir o seu modo de fabrico mas não é água-pé de certeza.

Água-pé é um vinho bastante fraco eventualmente com sete, oito graus ou menos, que resulta da lavagem do “pé”. Chamava-se pé ao baganho ou bagaço das uvas quando colocado na prensa para retirar o resto de mosto, por pressão exercida na parte superior. Este, por ser lavado com água, para retirar  melhor todo o conteúdo ficava com menor grau alcoólico. Era  a água do pé  que evoluiu para água-pé. Não sabemos porque razão se chamava pé  ao bagaço das uvas quando preparados na prensa para espremer, embora nos pareça que possa haver uma relação  com a “pisa a pé” ou seja o acto de pisar as uvas dentro das dornas por homens descalços e de calças arregaçadas. Só mais tarde apareceram os esmagadores mecânicos e os patamares de betão.

O S. Martinho não é propriamente  um Santo muito venerado  na Sarzedas. Dele  recordamos, num dos livros da instrução primária dos anos sessenta do séc. XX,  o provérbio

“PELO S. MARTINHO VAI À ADEGA E PROVA O VINHO”.

Não nos dizia muito, não era regra provar o vinho neste dia. Quanto à água-pé já se tinha provado e já se bebia há vários dias.

Recordamos os magustos, no Dia de Todos os Santos.

Longe vai o tempo  em que os rapazes de catorze, quinze ou até dezasseis anos e de pé descalço, (O avô Domingos dizia que tivera o primeiro par de botas com quinze anos)  guardavam os rebanhos pelos soutos nos limites da aldeia. O Soutinho ou o Souto da Fonte são os dois nomes que restam derivados da existência de castanheiros. Mas ouvimos dizer que muitos mais existiam: nas Promieiras, no Covão das Cabras, no Covão do Boi, no Vale da Vinha, na Feteira.

No tempo das castanhas os ditos rapazes tiravam a barriga de misérias porque podiam comer castanhas com alguma fartura. Parece que “roubavam” um fósforo, que não podiam desperdiçar ou falhar, porque era único, para fazer o magusto enquanto guardavam as ovelhas. Estamos a falar de realidades passadas nos anos dez do Séc. XX. Não havia fósforos com fartura. Uma caixa duravam meses, o lume era mantido constantemente na lareira. E se por acaso não se conseguisse soprar as brasas e reacendê-lo à noite, ia-se pedir umas bem incandescentes, ao vizinho. Só em último caso se gastava de novo um fósforo.  

O Magusto é uma festa popular, cujas formas de celebração divergem um pouco consoante as regiões. Grupos de amigos e famílias juntam-se à volta de uma fogueira onde se assam castanhas para comer. Bebe-se a jeropiga, água-pé ou vinho novo, fazem-se brincadeiras, as pessoas enfarruscam-se com as cinzas, cantam-se cantigas. O magusto realiza-se em datas festivas: no dia de S. Simão no dia de Todos-os-Santos ou no dia S. Martinho.

Na Sarzedas é no dia de Todos-os-Santos que se faz  o magusto. Numa base de agulhas de pinheiro colocam-se as castanhas sem ficarem amontoadas, mais agulha por cima e solta-se-lhe o fogo. As castanhas queimam por cima. Viram-se então à mão e  nova camada de agulha queimada por cima  concluí  a assadura. Depois é descascar e comer.

 

 

 

 

O Verão de S. Martinho

S. Martinho era filho de um oficial romano e nasceu na região da actual Hungria.

Com apenas dez anos nele despertou o ideal cristão.

Tendo sido obrigado a integrar os exércitos sempre demonstrou os seus princípios.

Martinho estava a regressar da Itália para a sua terra, montado no seu cavalo e passava num caminho onde, fazia muito, muito frio, vento e mau tempo.

Martinho estava agasalhado normalmente para a época: tinha uma capa vermelha, que os soldados romanos normalmente usavam.

De repente, aparece-lhe um homem muito pobre, vestido de roupas já velhas e rotas, cheio de frio que lhe pediu esmola. Infelizmente, Martinho não tinha nada para lhe dar. Então, pegou na espada, levantou-a e deu um golpe na sua capa. Cortou-a ao meio e deu metade ao pobre. Nesse momento, de repente, as nuvens e o mau tempo desapareceram. Parecia que era Verão! Foi como uma recompensa de Deus a Martinho por ele ter sido bom por isso que todos os anos, nesta altura do ano, mesmo sendo Outono, durante cerca de três dias o tempo fica melhor e mais quente: é o Verão de São Martinho.

 

 

FOTOS:

Magusto

Assador de metal

Assador de barro

Outro modo de assar castanhas

Assar castanhas com uma panela furada no fundo

Castanhas assadas

Dorna: Recepiente de madeira

de forma cilindrica ou tronco-cónica

 

publicado por Sir do Vasco às 22:18

2 comentários:
Continuas em grande. Com informação muito interessante e que me diz muito da nossa terra.
Um forte abraço!
Jorge Dinis
Anónimo a 6 de Novembro de 2010 às 23:35

Lembrei-me hoje deste conteúdo por causa da feira do S. Martinho na Golegã.
Estavas aí mesmo à espera para blogar, de tal modo que eu ainda aqui estou e já vi o teu comentário.
Abraço
Armando
Sir do Vasco a 6 de Novembro de 2010 às 23:56

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