Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

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Mai 10

DORMIR NO SOFÁ

 

Na sexta-feira passada, dia 28, o meu filho Flávio, chegou a casa entusiasmado porque:

“O Paulo já está na estrada!”

Foram colegas de curso. Estiveram também juntos, com outros colegas europeus, em dois projectos de intercâmbio entre universidades, na Holanda e na Alemanha.

Neste último, a organização distribuiu a cada participante uma bicicleta para utilizarem nos dias em que lá estiveram.

Este parece ter sido a grande motivação do Paulo para a tese de mestrado que desenvolveu posteriormente sob o tema "Contribuição do modo BICI na gestão da mobilidade urbana". Para tal fez “100dias de bicicleta em Lisboa”.

O Paulo Guerra Santos, engenheiro de estradas, está agora a fazer a volta a Portugal em 100 dias a pedalar na sua “poderosa” bicicleta. Pretende fazer a promoção da bicicleta como meio de transporte urbano.

 http://100diasdebicicletaemportugal.blogspot.com/

Para pernoitar utiliza o Couchsurfing, um recente conceito de serviço de hospitalidade, que foi iniciado em 1999 por Casey Fento com base na Internet, e sob o lema "Participação na criação de um mundo melhor, um sofá de cada vez".

 

A hospitalidade na Sarzedas é uma prática usual quando necessária, mas couchsurfing nunca me apercebi … …

 

…ou talvez…

 

No inicio dos anos sessenta do século passado, sessenta e dois ou sessenta e três, numa tarde soalheira de Fevereiro ou Março, fui ajudar o meu avô Domingos a fazer uma carrada de agulha e fetos secos, com o carro e a burra que à época existia lá em casa. Voltámos e descarregámos junto da entrada da casa dele. No meio desta tarefa surgem pela rua abaixo um grupo de pessoa e dois burros carregados com alforges cheios de várias coisas. “ São ciganos!” Pensei eu. (Era costume os ciganos passarem por lá de vez em quando, ofereciam dinheiro às mulheres que quisessem vender os seus cabelos entrançados, por sua vez as ciganas queriam ler a sina a troco de pagamento, claro.) Mas com o aproximar da caravana concluímos que eram forasteiros mas não eram ciganos. Pediam de comer. Exibiam um documento passado por uma instituição qualquer que não me recordo qual, em que os autorizava a andarem de terra em terra a pedir. Tinham sido vítimas das cheias do Tejo numa aldeia qualquer do Ribatejo, tinham ficado sem casa e sem haveres. Dois casais, com dois ou três filhos cada um.

“Já está ficar tarde, depressa é noite…” disse um dos homens. O senhor não tem um palheiro onde nós pudéssemos ficar esta noite?

A palha é um derivado de vegetais depois de secos, na Sarzedas normalmente de milho ou centeio, que era armazenada em casas velhas ou barracões para que não se molhasse e fosse servindo de alimento aos gados durante o Inverno. É um bom isolante térmico, pode prevenir o calor no Verão e o frio no Inverno.

Era costume os mendigos e pedintes que passavam, pedirem dormida nos palheiros. Era no entanto perigoso se fossem fumadores por razões óbvias.

No caso o meu avô tinha um palheiro, mas era de facto tão pequeno ou estava cheio que não podia satisfazer as condições  dos necessitados.

No meio da conversa tem, não tem... fica, não fica, o meu avô propôs:

“Só se quiserem dormir aqui em cima desta agulha e destes fetos!”  

Proposta aceita de imediato.

O rés-do-chão da casa tinha uma parte coberta embora aberta para o pátio que era cercado por um muro bastante alto.

Foi nessa parte coberta que se acomodaram …   "…um palheiro de cada vez".

 

Os burros por sua vez ficaram num alpendre, que ainda existia, na casa do Quintal da Figueira a refastelarem-se com umas fachas de palha.

 

 

publicado por Sir do Vasco às 12:08

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