Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

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Dez 09

 

 

Até 1933 só a Fonte Velha abastecia de água os habitantes da aldeia, que para tal tinham que se deslocar à dita fonte com o cântaro de barro, com o meio almude, (vasilha aferida feita de metal) o balde ou com qualquer outra vasilha onde pudessem transportar o precioso líquido até suas casas. Naquela data a Sarzedas do Vasco passou a dispor de dois fontanários públicos de água corrente. E só nos anos setenta do século passado foi instalada a rede de água ao domicílio.
               
Quem sempre viveu com água na torneira de sua casa não conseguirá imaginar o que é uma aldeia ao anoitecer, com várias pessoas a dirigirem-se às fontes e a terem de esperar pela sua vez a fim de encherem o seu cântaro. Como tinham outros afazeres, por vezes pediam a alguém que ficava na fila para que lhe colocassem a vasilha a encher e depois lha deixassem em cima do poial.
Ir dar de comer aos vários animais, toda a gente tinha vários animais, ir buscar lenha para acender a fogueira onde iriam cozinhar a ceia, eram afazeres que não podiam esperar.
As fontes eram de bica aberta, no Inverno deitavam muito, enchiam-se os cântaros rapidamente, mas no Verão esperava-se muito tempo até encher uma vasilha de água. Num Verão, talvez 1962 ou 1963, não conseguimos precisar, a estiagem foi longa e quente e as fontes novas secaram, tendo todos, recorrido à água da Fonte Velha ou dos poços.
Em dias como a véspera de Natal, Passagem de ano e outros dias festivos, todos se apressavam a preparar as coisas mais cedo. Afinal, num dia de festa todos queriam um pouco mais de descanso e convívio.
Era sempre bem vinda a ajuda das crianças, nas tarefas de pequena dificuldade. Os adultos incentivavam-nas de várias formas. Na véspera de Ano Novo incutiam-lhes o “medo” de andar na rua muito de noite, muito pela noite dentro, não se devia deixar qualquer objecto na rua, nem o cântaro na fonte durante a noite, porque à meia noite passariam os Antranos e os Antremeses  e podiam levá-los. Estes “Seres” não eram explícitos na compreensão duma criança, apenas os entendíamos como qualquer coisa má, nem mesmo fantasmagórica, porque a palavra fantasma não existia no nosso léxico da época.
A noite de Ano Novo na aldeia durante os últimos cinquenta anos não passou de uma noite de convívio familiar. Anos antes dizem que os rapazes e raparigas faziam muitas vezes um baile ou bailarico, não entendendo um bailarico como sendo um baile depreciado, mas sim como um baile de carácter e músicas populares.
Quanto aos Entreanos e Entremeses, compreendemos pouco depois, na idade escolar, o seu significado e acrescentámos por vezes, a hipótese de também passarem os Entresemanas.
Todos tivemos o privilégio de, há dez anos, ver passar os Entreséculos ou Entremilénios.
Os Entreanos e Entremeses, todos os anos continuam a passar, desta vez acompanhados dos Entredécadas.
Um GRANDE ano de 2010 para todos!
 FOTOS:    Cântaro de barro; Desenho de almude ou meio almude.
                
almude: 1. Medida de capacidade para líquidos
                   equivalente a 12 canadas ou 48  quartilhos.
 2. Antiga medida de cereais.
 3. Medida de 25 litros.
     (Esta medida variava segundo as localidades.
      na Sarzedas um almude são 20 litros.) 
       
A imagem da esquerda representa um almude feito de lata. A da direita é foto de um almude padrão, do tempo do rei D. Sebastião, tendo sido este rei que pela primeira vez uniformizou as medidas em Portugal, para tal mandou fazer exemplares por onde foram aferidos todos os outros, apesar do feitio poder variar.

poial:      1. Lugar alto onde se põe alguma coisa.

 2. Assento baixo de pedra, madeira, alvenaria, etc. Local
    onde se  colocavam os cantaros da água

quartilho: 1. A quarta parte da canada.

  2. Porção aproximada a meio litro.
 
 
 
 
 

 

publicado por Sir do Vasco às 21:58

5 comentários:
Armando
Já há algum tempo que não visitava o "nosso" site e claro surpresa das surpresas, ou talvez não, muita e muito interessante nova informação, pelo que não resisti e aqui estou a transmitir-te a minha satisfação e o prazer que me dá ler o que escreves. Há um bom bocado que estou a ler tudo com grande avidez, indo ver este artigo, depois aquele, voltando ao primeiro, para depois ir a um mais antigo que já li mas que gosto de recordar, etc. Não esquecendo os comentários de outros leitores, que inclusivé me fazem despertar a curiosidade em relação a quem são esses nossos conterrâneos que não conheço e que sairam da Sarzedas aos 12 e 13 anos, mas que não esquecem a terra onde nasceram, que é também a nossa terra.
Mas o que me levou a fazer este comentário é a referência que fazes ao facto de as fontes serem de bica aberta e no Verão correr muito pouca água, o que fazia com que as pesssoas, tivessem que estar muito tempo para encher os cântaros. Lembro-me muito bem e falo disso muitas vezes com muita saudade. Em miúdo passava sempre o mês inteiro de Setembro na Sarzedas do Vasco, altura da "recolha" e que as pessoas só vinham dos campos já de noite, indo à fonte buscar água, onde se juntava muita gente e dado que corria muito pouca água era um processo muito demorado. Momento mágico para mim, que jantava à pressa, para ir para a fonte ouvir as histórias dos mais velhos, num ambiente divinal, que só as noites de Verão de província podem proporcionar, com o seu cheiro caracteístico e os seus ruídos próprios, e que só quem passou por isso pode perceber.
Um abraço do amigo
Jorge Dinis

Anónimo a 12 de Fevereiro de 2010 às 16:06

Amigo Jorge
Mais uma vez obrigado pela tua participação.
Todos nós recordamos com nostalgia esses tempos em que a nossa aldeia tinha bastante gente e sentimos agora, dum modo diferente todos estes anos depois, o lusco-fusco do anoitecer na aldeia num noite de Verão. Naquele tempo viviamos mas não o sentiamos. Agora recordamos e sentimos cá dentro essas recordações e jamais as podemos tornar a viver!
Mas é bom recordar!
Os nossos conterraneos que têm deixado comentários, são o Sr Salvador e Sr. Manuel, ambos irmãos da Sra. D. Aurora, casado com Sr. Manuel Rodrigues (Chitas). O sr. Salvador está no Brasil e o Sr. Manuel em Lisboa.
Um abraço Jorge!
Armando
Sir do Vasco a 16 de Fevereiro de 2010 às 00:17

Olá. Dei com este sitio por acaso quando procurava uma imagem que pretendia colocar num "post" Gostei e fiquei por aqui a ler. Não conhecia sequer o nome da vossa terra, porém, apesar da grande diversidade de usos e costumes que o nosso país tem, encontrei aqui muitas coisas sobre as quais me tenho debruçado também. No que concerne à dificuldade de obter água, na terra da minha mãe onde fiz o percurso do ensino primário, chegou a ser tão grande a penúria de água que foi necessário fechar a bica a cadeado e proibir o abastecimento noturno. Pelas cinco da manhã já havia uma fila de 10 a 20 pessoas e alguém vinha então retirar o dadeado. Tempos difíceis mesmo, mas, tirando essas e outras mazelas desses temos, ficou ainda assim uma indelével nostalgia, não retrógrada, nada disso, porque o mundo não pára, mas uma nostalgia saudável e lúcida na constactação dos disparates que se cometeram neste país desde há cinquanta anos a esta parte.
João Chamiço a 12 de Julho de 2010 às 12:28

Já agora, deixo-lhe o convite para ir até: http://rosa_dos_ventos.blogs.sapo.pt/
João Chamiço a 12 de Julho de 2010 às 12:31

Amigo Armando eu sou o Armando das sarzedas e gostaria de entrar em contacto contigo´
Este é o email da minha mulher porque nao tenho visao sufeciente para ir ao computador
Agradecia a tua resposta envie a resposta para o email
porque nao tenho blog no sapo
madalenamarques1957@hotmail.co.uk
Armando Abreu a 28 de Agosto de 2010 às 18:28

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