Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

13
Dez 09

 

O BODO E A NOVENA
 
 
Quando se pergunta a um grupo de crianças, “__Qual é a razão de celebrarmos o Natal?” ou “__Porque é que existe Natal?” a resposta vem imediata e espontânea como é próprio das crianças: “__Porque há prendas! __Porque vem o Pai Natal!”. Se continuarmos nas perguntas: “__Quais as figuras que simbolizam o Natal?” ou “__Se quiserem fazer desenhos que simbolizem ou representem o Natal, o que fariam?”. Resposta: __A árvore de Natal, o Pai Natal, os presentes, as renas, a estrela…” e só depois “...o anjo, os sinos, as velas…” Mas nós insistimos: “__Pensem lá um pouco, não haverá mesmo um outro motivo para festejarmos o Natal?” Em cada grupo de vinte, uma ou duas crianças  (5 a 10%) responderá: “__Porque Jesus nasceu,” ou “__Porque nasceu o Menino Jesus.” São estes os valores que as nossas crianças têm, porque lhe são transmitidos assim, relativamente ao Natal.
Hoje13-12-2009 a TVI, no Jornal da Uma noticiou a Associação CAIS a distribuir pão, no Rossio em Lisboa. Pão a quem passa, novos, velhos, sem abrigo ou não, com o fim de “distribuir” convívio, amizade partilha… A Legião da Boa Vontade, em Braga distribuiu cabazes de Natal, onde também houve prendas, palhaços e balões para as crianças.
Na RTP, no Jornal da Tarde  “Dois mil idosos juntam-se em Vila Real para almoço de Natal oferecido pela autarquia…  …A QUERCUS de Castelo Branco prefere organizar espectáculo com o fim de recolher fundos para protecção de animais…”
Os presidentes das associações e das Juntas de Freguesia falam para as televisões…
 
Serão Bodos pelo Natal?
E no resto do ano?
 
Há dias mostraram, também numa das televisões, a entrega de assinaturas para constituição de um partido defensor dos animais!
 
Que hipocrisia!
 
Todos sabemos que existem em Portugal milhares de crianças abandonadas…
Milhares de idosos que vivem na solidão além de terem outras necessidades.
 

 

O BODO
A distribuição de Bodos fez-se em todas as regiões do nosso país. Em louvor do Santo ou Santa da devoção, por motivo de invocar uma necessidade ou pagar uma promessa. O Bodo era, normalmente a distribuição de pão aos pobres, embora em algumas terras fosse também distribuída carne e outras espécies alimentares tradicionais, bolos, confeitos e nos Açores vinhos de cheiro (morangueiro) e bolos de massa sovada.
Na Festa dos Tabuleiros em Tomar, o pão dos tabuleiros era distribuído e consumido… hoje é para desperdiçar, depois de turista ver. Em Pombal a festa ganhou mesmo nome de Festa do Bodo. No Ribatejo várias são as festas ao Divino Espírito Santo com distribuição do Bodo. As festas ainda se vão fazendo, mas a distribuição do Bodo já não, ninguém quer pão! Os "pobres" podem até pedir dinheiro para a bica, ao mesmo tempo que fumam um cigarro, mas… pão?
Diz-se que em Portugal, foram D. Dinis e a rainha Santa Isabel os monarcas inauguradores destes cerimoniais religiosos. Reza a tradição que a primeira cerimónia deste culto se realizou na Sé de Coimbra e que dela constou a coroação simbólica de um mendigo, seguida da distribuição de alimentos aos pobres, ou seja, do Bodo. A partir de então, o ritual tornou-se tradição e disseminou-se pelo país e, nalguns locais, sobreviveu até ao presente.
O Bodo era por excelência uma festa de partilha.
 
Na Sarzedas e arredores não temos festas do Bodo. Temos a lembrança da distribuição de Bodos em cumprimento de promessas, junto da capela do Souto Fundeiro. Talvez não se apercebam mas o Souto Fundeiro, também conhecido por Vitoural, tem uma capelinha, junto à curva grande da estrada. O santo que nela se venera julgamos que seja o Senhor dos Aflitos. A seguir à capela havia a fonte de água corrente, que estamos em crer, já não existe no seu aspecto primitivo.  
 Normalmente para cumprimento de  promessas, as pessoas confeccionavam vários bolos  que levavam numa cesta à cabeça. Chegados todos  ao local, era feita uma oração colectiva de acordo com a vontade do  ou da promitente e de seguida feita a distribuição aos pobres.   
Os bolos eram na realidade, pães pequenos feitos de farinha de milho e alguma mistura de centeio ou mesmo trigo. Tinham o formato aproximado dos papo-secos antigos, com uma maminha de cada lado. Por vezes podiam  levar açúcar e erva-doce.
 
AS NOVENAS
Não é difícil deduzir que novena deriva de nove. Nove pessoas escolhidas ou convidadas a participar neste acto religioso. Embora por vezes fossem mais, não sabemos se participantes ou simplesmente acompanhantes.
Uns eram de opinião que uma novena era uma manifestação religiosa, séria, pelo que os participantes deveriam seguir o seu caminho em oração e compenetrados na sua devoção. Outros aceitavam a ideia de que pelo caminho se podia dar azo ao divertimento e o acto religioso seria apenas no local do culto para onde se dirigiam. Assim muitas novenas eram composta de rapazes e raparigas que tocavam concertina e cantavam durante as caminhadas até ao local.
Recordamos a ida em novenas à Nossa Senhora da Guia, à Sapateira, à Nossa Senhora da Piedade, na freguesia de Vila Facaia e à Nossa Senhora da Saúde, no Fontão Fundeiro, freguesia de Campelo.
 
 
 Informações recentes dizem-nos que houve casos de BODOS organizados com a comparticipação de todos ou da maioria dos habitantes da aldeia. Uma ou duas pessoa dispunham-se a pedir um pouco de milho a cada habitante, milho esse que enviavam ao moinho para ser transformado em farinha, com ele faziam os respectivos "bolos" que iriam ser distribuidos. A intenção nestes casos era o pedido de obtenção de uma "graça" concedida pelo santo ou santa a quem se pedia, sobretudo relacionado com as colheitas ou com o tempo, ouvia-se muitas vezes os pedidos de "tempo conveniente"  ou seja de acordo com a época, nem muito calor, nem muita chuva.
Quanto às novenas, também terão sido organizadas a outros locais como  à Graça - (Nossa Senhora da Graça); ao Bairrão (Nossa Senhora da Agonia (?) ou  dos Aflitos (?)). (Complemento de 25-12-09)

 

publicado por Sir do Vasco às 23:48

4 comentários:
Caro amigo Armando,
É sempre com muito interesse que leio o seu blog. Através da sua descrição, relembro os meus tempos de rapaz nas Sarzedas do Vasco, até 1950, ano em que vim para Lisboa, com 13 anos. Também eu participei numa novena quando tinha 7 ou 8 anos. Julgo que teria sido à Graça e foi organizada pela sua avó Conceição. O motivo não estou muito certo, teria sido melhoras de saúde do seu tio Armando? Também num ano fui a pé, com a minha avó Rosa, à feira de São Simão, por aqueles caminhos sinuosos. Recordo que ela comprou nozes, que pela primeira vez saboreei e que ainda hoje sou grande apreciador. E também fiz aqueles de que fala, que aprendi cm os mais velhos.

PARABÉNS pelo seu trabalho. Bom Natal para si e seus familiares, não esquecendo os seus pais Visitação e Álvaro.

Um abraço,
Manuel Tomaz
Manuel Tomaz a 24 de Dezembro de 2009 às 15:25

Amigo Manuel Tomaz
Agradeço o seu comentário e fico contente pelo facto de acrescentar e complementar as histórias que me vou lembrando e escrevendo.É bom saber que outros, como o senhor, também tiveram algumas vivências semelhantes.
Sempre que julgue conveniente faça favor de comentar, criticar ou participar.
Obrigado. Para si e para todos os seus mais próximos vai também o meu desejo de um Santo Natal e um Ano de 2010 ainda melhor.
Um abraço
Armando Eiras
Sir do Vasco a 25 de Dezembro de 2009 às 01:23

Caro Armando: Também sou um leitor assíduo de seu BLOG. Suas postagens são contadas de uma forma tão realista, que a sua leitura me comove ao ponto de imaginar que estou lá nas Sarzedas do Vasco, convivendo com as tradições contadas. Saí com a idade de 12 anos, hoje estou com 84, mas meu pensamento está sempre ligado com os costumes de nossa gente.
Sou irmão do Manuel Tomaz que fez o comentário anterior, o que me levou a tomar a iniciativa de fazer também o meu, concordando em tudo com a sua opinião.
Meu abraço para voce , amigo Armando, e que DEUS o ilumine para continuar a escrever coisas interessantes da nossa terra e da nossa gente.
Salvador da Silva Tomaz a 26 de Dezembro de 2009 às 01:03

Caro amigo Salvador
Obrigado pelo comentário.
A sua opinião é sempre bem vinda.
Como já referi vou tentando recordar assuntos e tradições vividos na nossa aldeia. Muitas vezes surge a ideia relacionada com os acontecimentos actuais. Pelo menos que fique contado aos mais novos, aquilo de que eu me vou lembrando.
Desejo que o seu Natal tenha sido muito bom e que o Ano de 2010 seja replecto de felicidades para si e para todos os seus.
Um abraço
Armando Eiras
Sir do Vasco a 28 de Dezembro de 2009 às 00:25

Dezembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30


mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
blogs SAPO