Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

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QUEM SABE O QUE É UM “MOINHO” DE CANOILOS (canoula) DE MILHO?
 
Os professores de Trabalhos Manuais “desapareceram”, foram reciclados. A junção das disciplinas de Educação Visual e de Trabalhos Manuais no 2º ciclo do Ensino Básico, originaram a nova e híbrida de Educação Visual e Tecnológica. Foi a oficialização da perda de destreza manual das crianças, aliada à evolução das TIC e da falta de educação familiar. (Refiro-me aqui ao ver fazer, ao ajudar a fazer, ao aprender pequenas tarefas domésticas, ao ajudar os pais, etc. Isto hoje é crime! Triste maneira de pensar, triste país este!
Há por ai alguns alunos, filhos de imigrantes de Leste, que ajudam os pais em casa, e “dão cartas” na escola. Porque será?
Tive há anos dois alunos que faziam parte do elenco de um circo que passou por aqui, durante duas semanas.”Produziram” nessas duas semanas  o mesmo que os outros alunos da turma em dois meses de aulas. Simplesmente, ouviam à primeira explicação e executavam. Porque seria? Tirem as vossas conclusões!).
 
Há vários anos atrás, alguns alunos usavam canivete e não precisavam de mostrá-lo por bem ou por mal. Usavam-no quando necessitavam e guardavam-no no bolso quando não precisavam dele. Não andavam a apontá-lo ao pescoço dos colegas. Sabiam cortar com ele um pau, uma cana, afiar um lápis, quando ainda não havia apara-lápis “a pontapé” como actualmente.
 
Toda a criança produziu brinquedos, fez de conta que era carpinteiro, serrador, carreiro, caçador, pintor, costureira, dona de casa, etc. Todos sabiam por ver fazer aos adultos, ou utilizando a sua imaginação, sem conflitos entre as partes. A pouco e pouco as crianças e jovens deixaram de saber fazer certas técnicas, e de saber utilizar certos instrumentos e saber qual a função dos mesmos.
 
A grande maioria das nossas crianças de dez, doze anos, não sabem pegar numa faca, não sabem descascar uma maçã, não sabem varrer com uma vassoura, etc.. Há vários anos atrás, quando os alunos chegavam às aulas de TM, todo o rapaz sabia pregar um prego e toda a menina sabia pegar numa agulha!
(“Não se podem censurar os jovens preguiçosos, quando a responsável por eles serem assim é a educação dos seus pais.” Esopo)
 
Há cinquenta anos atrás, também eu comecei a cortar canoilos e paus com navalha e quando me descuidava cortava também os dedos. Comecei de facto muito novo a conviver com meu avô materno, que usava sempre navalha no bolso do casaco. Foi a ele que vi utilizar a navalha como instrumento polivalente. A navalha cortava, podava, cortava a ráfia de atar as videiras, cortava pau, cortava pão, servia de talher, improvisava um garfo de jóina, etc. Com a navalha vi fazer moinhos com canoilos de milho, moinhos que com vento de jeito moíam sem parar, sem gastar o eixo por falta de óleo. E para os regatos de água a mesma navalha produzia “tecnologia” sem cessar, moinhos do mesmo material que ficavam noite e dia sem parar “a moer, a moer…” 
 
Tive o privilégio de a minha avó Conceição, me dar um canivete, cujo cabo era branco com um coração vermelho, um pouco curvo para proteger a ponta da lâmina quando fechado. Foi o meu primeiro canivete, tinha eu talvez, seis anos. A minha avó que também usava canivete, guardava-o numa algibeira que usava por baixo da saia, atada à cintura e fazia entrar a mão pela abertura lateral da saia.
Assim comecei também, a “produzir” moinhos de vento e de água, feitos de canoilos do milho, garfos de joina, gaitas de cana de centeio e de folha de oliveira, forquetas para fisgas, ganchetas para andar com os arcos, etc.. Vi e aprendi a fazer barquinhos com carcodia de pinheiro... Cortei ramos de sabugueiro e construi   estoques.  Aprendi pequenas técnicas por ver fazer  aos outros. Aprendi o encaixe a meia madeira e em rabo de andorinha feitos em canoilos, embora não soubesse os seus nomes técnicos.
 
 
 
Também aprendi a soldar com eléctrodos por tanto ver fazer ao Ti Jaime, na serralharia que ele teve nas Sobreiras. Copiei as primeiras letras sem as conhecer, mas desenhava-as tal como estavam no livro. Copiei vários desenhos estereotipados que o meu pai me fazia.
 
Mais tarde quis o destino que eu fosse professor de Trabalhos Manuais.
 
E afinal, quem sabe o que é um moinho de canoilo de milho?
 
Na Sarzedas do Vasco, actualmente, não será fácil encontrar canoilos de milho. Mas se encontrarem e quiserem saber, tragam cá, que eu ensino como se faz.
 
 
 
 ESTOQUE - "Pressão de ar" artesanal constituido  por um ramo direito de salgueiro ao qual se retirou a medula ficando furado de lado a lado.  Com um pau de espessura adaptada mas um pouco mais curto, fazia-se chegar à saída do buraco uma rolha de cortiça que não saía devido ao pau ser ligeiramente mais curto. Colocava-se então outra rolha semelhante no inicio do buraco. Pressionando com o pau esta última, ela ia fazer pressão dentro do tubo na direcção da que estava na saída obrigando-a a sair com força e direcção. Por sua vez a rolha que foi empurrada pelo pau ficou agora na saída pronta a ser pressionada.
 
ESPINGARDA DE CANA  - Formada por uma cana completamente furada, na qual se colocava uma verdasca de oliveira que no lado de trás estava fixa e na frente tinha uma abertura longitudinal de modo que se pudesse puxar atrás e disparar contra a flecha colocada na boca. A força da verdasca que tinha tendência para desfazer o arco, ao bater na flecha projectava-a para frente. A espingarda de cana não era muito comum na Sarzedas visto que não tinhamos canas para a construir. Só excepcionalmente quando se ia à "ribeira grande" (Ribeira de  Pera) é que  traziamos umas canas. 
 
publicado por Sir do Vasco às 00:48

3 comentários:
Estas imagens transportam-nos à infância, quando construíam-mos estes brinquedos.
Uma excelente ideia ao postar estas imagens, não só para recordar velhos tempos, como para mostrar aos jovens como era naquele tempo e para
saberem que se queríamos brinquedos tínhamos que os fazer.
Parabéns
Anónimo a 5 de Dezembro de 2009 às 14:11

Detesto o anonimato. Quando deixei o meu comentário sobre os temas postados neste Blog, inconscientemente acabei por ficar anónimo.
As minhas sinceras desculpas

Teófilo
Teófilo C. Silva a 5 de Dezembro de 2009 às 22:48

Tenho 31 anos e devo ser dos últimos Transmontanos que brincou com 1 estoque.
Aqui não não se usavam os canoilos (caroinos como se chamam cá) para as buchas, era com desperdícios do tratamento do linho artesanal.

Cumprimentos e continue.
LMCM a 16 de Junho de 2010 às 22:08

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