Aldeia do concelho de Castanheira de Pêra, distrito de Leiria

15
Out 17

A SALVAÇÃO este post está em construção

 

Hoje tive um motivo que me trouxe aqui e começar a escrever sobre a salvação. Não pensem que “virei” Testemunha de Jeová, não é isso. Contudo a SALVAÇÃO que vou falar, digamos que originalmente está relacionada com a salvação da alma.

Umas mais do que outras as pessoas todas pretendem a salvação. Umas mais a salvação do corpo e outras pensaram na salvação da alma.

Como católico, embora pouco praticante, continuo a ir à missa aos domingos. Como crente ou também procurando “A Salvação”. Hoje quando passava no largo na igreja, iam também uma senhora e um cavalheiro em plena conversa dizia ela: “zangou-se e deixou de me dar a salvação”. Assim pensei eu neste post e neste tema. A salvação. Antigamente a salvação era um uso de toda a gente em todas as aldeias e na Sarzedas também. Este hábito perdeu-se e quando existe foi muitas vezes deturpado do original. Quanto mais novas são as pessoas menos cumprimentam os outros e se forem desconhecidos pior ainda. Na Sarzedas sempre ouvi um pessoa ao passar por outra dizer “Bom dia” “Boa tarde” “Boa noite” conforme a situação. Poucos invocavam Deus para a salvação. Lembro –me, no entanto, do Ti Oliveira que dizia sempre “Bom Dia nos Dê Deus” ou “Até amanhã se Deus quiser”. Os mais velhos lembrar-se-ão das locutoras da TV se despedirem com esta frase. Era obrigatório antigamente. Atualmente algumas e alguns, poucos, o fazem por convicção naturalmente.

A salvação era assim o desejo que uma pessoa demonstrava perante a outra de que tudo lhe corresse bem.

Ouve por vezes a ignorância de alguns pretender fazer humor onde de facto não existe. Alguém diz “Boa Tarde”, fequentemente ouve-se dizer “Vens Tarde? Viesses mais cedo!”. Um agradecimento pouco ortodoxo a quem deseja que a tarde seja boa. A salvação é um desejo não uma constatação.

Encontrei neste blog “atenta Inquietude” um post muito interessante sobre o tema, com a devida vénia ao autor Zé Morgado, transcrevo.

http://atentainquietude.blogspot.pt/2010/11/dar-salvacao.html

Como o povo costuma dizer estamos sempre a aprender. Fiquei hoje a saber través do JN que o dia 21 de Novembro é o Dia Internacional da Saudação e tem como objectivo a promoção da paz através do cumprimento. O jornal dispõe ainda de alguma informação sobre as formas de cumprimento em diversas paragens.

Do meu ponto de vista, falta um dos muitos enunciados que a língua portuguesa tem e que me encantam, “dar a salvação”, isto é, cumprimentar. Desde miúdo que à minha avó ouvia esta expressão e a recomendação de que sempre que se entra em algum lado ou se passa por alguém, conhecido ou não, se deve dar a salvação. Este comportamento perdeu-se quase completamente, ninguém se cumprimenta ao cruzar-se na rua, excepto se for conhecido, naturalmente, e quando se entra num qualquer local, um café, por exemplo, e se solta um bom dia, a maioria das pessoas não liga e alguns olham-nos como alienígenas. Alias, tal estranheza verifica-se quase sempre que se cumprimenta alguém desconhecido com que nos cruzamos, convido-vos à experiência.

No meu Alentejo, como provavelmente noutras paragens, ainda muita gente dá a salvação na rua e, acho lindíssimo, alguns dos homens mais velhos ainda levam a mão ao chapéu ou à boina. E também se mantém para muitas pessoas o hábito de um cumprimento global ao entrar num espaço público.

Dirão que nada disto parece relevante e, provavelmente, não o será. Mas cumprimentar alguém com que nos cruzamos tem a enorme consequência de que esse alguém é olhado e interpelado, deixou de ser transparente, tornou-se visível, vivo. Num mundo em que as relações interpessoais são cada vez mais em suporte virtual e em que as pessoas estão mais sós, mas com uma “rede social imensa”, não é questão de somenos.

Finalmente, esta ideia de poder receber de alguém, ou poder oferecer a alguém a salvação é, no mínimo, reconfortante. Mais do que nunca.

 

 

publicado por Sir do Vasco às 23:42

10
Jan 17

Na minha aldeia também havia um ferreiro.

O Ti Jaime Silva, ferreiro e mais tarde serralheiro

 

Procurei na NET e encontrei várias imagens com muita  semelhança da oficina que conheci.

Nenhuma desta imagens é do Ti Jaime nem da oficina que ele teve na Sarzedas do Vasco

localizada exatamente no sitio onde está  a casa da minha prima e comadre Natália Almeida.

 

oficina

Digamos que o aspeto geral era este, embora mais espaçosa.

Vamos imaginar   a dorna e a bigorna mais para direita em frente à forja, deixando toda a parte central livre.

A forja não tinha chaminé.

fole

A forja dele era semelhante a esta de museu, mas toda negra, cheia de tralha e foligem de carvão.

A alavanca superior servia para dar ao fole, que acendia e atiçava o lume.

Onde se colocava o ferro a aquecer.

forja1

O qual depois de estar em brasa era malhado com martelo, em cima da bigorna, para adquirir a forma desejada.

bigorna

 

bate o malhobate malho

 

Também tinha um engenho de furar manual igual ao da imagem. Ele fazia as suas próprias brocas.

eng, de furar

Trabalhava com forja e mais tarde passou a soldar com elétrodos o que foi mais uma novidade para mim.

Na oficina dele vi a primeira rebarbadora.

Muitas vezes pedia-lhe se me deixava fazer os meus "biscates" em troca tinha de lhe ir buscar um barril de água à fonte.

Aprendi muito com ele apenas a ver fazer e só mais tarde tive oportunidade de por em prática, relembrando aquilo que vi.

Temperar o ferro tinha muito que saber eu via quando ele esfregava um corno de carneiro no ferro quente, via-o mergulhar o ferro em água depois de ter adquirido a forma desejada, ora lentamente  ora  rápido. Só mais tarde entendi o porquê quando tive de aprender,  algo sobre isso. Não sei fazer mas tenho pena. Mas aprendi a soldar com elétrodos (arco voltáico)

Não era qualquer ferreiro que fazia um portão todo rebitado e muito menos fazer bem feito uma soldadura por caldeamento. Ele fazia. Depois de haver aparelhos de soldar dexou de ser necessário fazer caldeamento.

publicado por Sir do Vasco às 20:31

UMAS CURIOSIDADES SOBRE A SARZEDAS E SEUS DESCENDENTES.

MAIS UMA VEZ ENVIADAS PELO SR. MANUEL TOMAZ, AS QUAIS DESDE JÁ AGRADECEMOS.

PARECE-NOS QUE TUDO O QUE SE POSSA CONTAR SOBRE A NOSSA ALDEIA E SUAS GENTES, É INTERESSANTE.

O SR MANUEL É IRMÃO DO SR SALVADOR, RESIDENTE NO BRASIL, E DA SRA. D. AURORA, ESPOSA DO SR. MANUEL RODRIGUES, CONHECIDO POR MANUEL DAS CHITAS. DEIXAMOS ESTA EXPLICAÇÃO PARA QUE QUEM EVENTUALMENTE NÃO CONHEÇA, POSSA MAIS FACILMENTE ENTRA EM CONTEXTO COM O QUE SE PUBLICA.

 

C:\Documents and Settings\Eiras\Os meus documentos

 

Boa tarde Armando,

Junto a foto onde está a minha Mãe quando fez o exame da 3ª classe, em
1917. É a primeira à esquerda, em baixo, a seguir, ao centro, é a
professora. Quanto aos restantes, não sei quem são os seus descendentes.
Só haverá uma pessoa que talvez saiba, é a minha tia e sua prima Aurora,
mãe do Fernando. Ela está num lar em Vila Chã, Pombal, quando eu a
visitar vou procurar detalhes dos descendentes deles.

Quanto ao meu tio Capitão Augusto Henriques (1880-1967), poucas vezes foi
à Sarzedas, a última teria sido por volta de 1950.
Casou com uma senhora da classe média lisboeta em 1925 e não tiveram
descendentes. Ela faleceu nos finais da década de 40. Penso que o
casamento teria acontecido já no período em que o meu tio estava livre do
Ministério da Guerra. Tinha uma vida muito própria que consistia nuns
encontros diários com os seus amigos no Café Chave de Ouro, no Rossio,
bem perto da sua residência e uma quinzena por ano nas termas das Caldas da Rainha.
Veio a falecer em sua casa no dia 25 de Abril de 1967 e está sepultado no 
no Talhão dos Combatentes no Cemitério do Alto de São João. Uma curiosidade: ele era 
maçom, mas ninguém na família tinham conhecimento, nem sabiam o que isso era...
Só há meia dúzia de anos eu vim a saber por outra via.

O padre Carlos Augusto, meu primo, é filho do meu tio Carlos, irmão da minha Mãe. Nasceu
em 1942 em Lisboa e já está aposentado. Vive em Lisboa na avenida 5 de Outubro, numa 
residência do Patriarcado. Tem problemas de saúde de alguma gravidade.

E é tudo, amigo Armando. Um abraço,

Manuel Tomaz. 
  

 

publicado por Sir do Vasco às 19:35

06
Jan 17

PORQUE HOJE É DIA DE REIS, LEMBREI-ME...

 

 

dia-dos-reis

 

 

O tempo de escolarização hoje conhecido por 1º ciclo de Ensino Básico, era anteriormente designado por Escola Primária.

Nas décadas de 40 e 50 do século passado era apenas obrigatório frequentar a escola até às três primeiras classes, passando em 1956 a ser obrigatória, somente para as crianças do sexo masculino, até às quatro primeiras classes. Em 1960, passou a ser obrigatório frequentar a escola até à quarta classe, independentemente do sexo da criança, sendo depois alargada esta obrigatoriedade até às seis classes.

Da minha frequência desse ensino, retenho que era obrigatório fazer exame da 4ª classe. Sei que anteriormente também se fazia exame na 3ª classe. Não é do meu conhecimento quando terminou esta obrigatoriedade, mas deve ter rondado o ano de 1958 ou 1959.

No dia 1 de Outubro faziam-se as matriculas e no dia 7  começavam as aulas. Era normal a criança iniciar a escolarização no ano em que completava 7 anos, no entanto em algumas escolas e de acordo com a vontade ou disponibilidade do professor ou professora, havia quem iniciasse com 6 anos.

Assim sendo no dia 1 de Outubro de 1959 lá fui eu com a minha mãe até à Escola Cipriano Lopes de Almeida em Sarzedas de S. Pedro.

Não, não foi possível o rapazinho, matricular-se. A professora Maria Adelaide Garcia Madeira não o aceitou. Tinha muitos alunos e ele  só tinha 6 anos, ainda que seis e meio, dado que faço anos em Março.

Outubro, 1 de 1960, de novo na mesma escola, a mesma professora, agora sim, e comigo todos os da minha idade e também alguns com menos um ano. A turma com 4 classes tinha 42 alunos. De facto era obra!

No ano anterior apesar de não frequentar a escola frequentei a catequese.

O Padre Arménio Marques era o Pároco, (Embora me lembre do Padre Nascimento celebrar missa na capela  suponho que teria já falecido  nesta data) tenho a vaga ideia de uma ou outra vez o ter visto na Sarzedas de S. Pedro. Tinha um carro antigo, não sei precisar a marca, tipo “arrastadeira”, que os rapazes mais velhos às vezes empurravam quando não pegava doutra maneira. Não sei se, os mais novos, saberão que carro era um arrastadeira, a Citroen teve, não sei se a designação era exclusiva desta marca ou não. Vejam na NET.

A missa na capela era celebrada todos os domingos pelo Padre Américo, de Vila Facaia, que vinha a pé, celebrava na Sarzedas e ia celebrar à Moita.

Existia uma senha de presença na catequese. No final do ano quem tivesse as presenças necessária iria ao passeio final. Junho ou Julho de 1960 passeio à Figueira da Foz.

Neste dia várias memórias:

- Atravessei a serra da Lousã pela 1ª vez. Entre outras animações: "Viva a curva da ferradura!" gritava o Pedro ao microfone da camioneta. Curva da ferradura!?

- Fui à Figueira e vi o mar pela 1ª vez.

- Ouvi a cantiga “Loja do Mestre André” a 1ª vez.

E eu “tinha” uma campainha (se fosse hoje dir-se-ia virtual). O padre Arménio ia cantando e “distribuindo” os instrumentos pelos alunos.

Almoçámos na Serra da Boa Viagem. Alguém trabalhou para levar arroz e pastéis de bacalhau ou croquetes para toda a rapaziada da paróquia. Só me lembro do Pedro sacristão, o incansável Pedro. Fomos pela serra voltámos pelo Pontão. Já lusco fusco, mais de noite que de dia, parámos junto à fonte da ladeira de Alge, mandaram-nos sentar por ali e distribuiram filhós a todos. Imaginem o que era trabalhar para os meninos da catequese!

Entretanto o padre tem um carro novo que não é preciso empurrar. Grande “festa” de observação do dito quando veio à Sarzedas. Um VW carocha novo,  diziam que a matricula, HI-?-?, queria dizer Homem da Igreja.

Verão de 1960 o Padre Arménio é deslocado desta paróquia sendo colocado por cá o Padre Aurélio de Campos. Este teve um acidente com o carro que era pertença da Fabrica da Igreja, o qual foi inutilizado, ou seja foi para a sucata e substituido por outro VW também carocha, de matricula LE-31-26 que queria lembrar o Leitor do Evangelhos

Na flor dos seus 29 anos, fez o início duma nova época.

Muitos recordarão concerteza esse tempo.

Com os meus 7 anos eu não sabia que ele tinha 29, e só o soube há poucos anos atrás no 1º almoço convívio dos antigos alunos do ESD, para mim era tão novo ou tão velho como o outro. Apenas recordo ouvir dizer “ Não é tão bom pregador como o padre Arménio mas é muito bom padre”.

Iniciou-se uma época muito movimentada e inovadora na paróquia.

Pelo menos uma vez por mês, o Padre Aurélio, vinha celebrar missa à Sarzedas. Que pouco tempo mais tarde passou a ser domingo sim domingo não, alternando com o Padre Américo entre Sarzedas e Moita.

A missa, ao domingo,  deixou de ser às oito da manhâ e passou a ser às dez.

Porque hoje é Dia de Reis lembrei-me, não sendo feriado ou dia santo oficial, havia sempre missa na capela e a pessoas guardavam-no como tal.

Presidia aos funerais quando necessário indo a casa dos defuntos fazer o oração de levantamento do corpo. Atualmente quando há funeral, com padre,  este  espera na capela. Entre a capela e o cemitério o cortejo funebre parava duas vezes, o padre fazia uma oração. A paragem também era necessária dado que a urna era transportada a pulso, assim aproveitava-se e trocavam os transportadores.

Depois de alguém falecer, havia sempre a missa de sétimo dia ou seja ao 7º dia a contar do dia da morte da dita pessoa, celebrava-se missa por sua alma.  Incansável o Padre Aurélio, durante a semana, dizia normalmente missa  na Igreja Matriz e numa capela.

Não falhava uma Extrema- unção.

Casamentos, batizados... naturalmente.

Fundou, conjuntamente com a Dra. Maria Cândida Dinis Barreto de  Carvalho, o Externato S. Domingos. Alguém lhe terá "pedido" quando chegou à Castanheira "Ensino, Sr Padre, Ensino é que nós precisamos  na Castanheira" .

"Fui ao Ministério da Educação e trouxe autorização, com alvará para lecionar  em Castanheira de Pera até ao 5º ano." Disse.

Trabalho e inovação.

Quem não se lembra das semanas de pregação, durante a quaresma. Uma semana em cada capelania. À noite, um dia rezava-se o terço, outro rezava-se a via sacra, outro faziam-se confissões. Vinham sempre um ou dois "pregadores" de fora. E depois de um  dia de trabalho as pessoas iam à pregação. Trabalho para as pessoas , trabalho para o Padre. No dia seguinte as missas da manhã, as aulas do colégio e mais o que aparecesse...

Foi um padre presente.

Por volta de 1978, deixou a paróquia.

Conheci o Padre Matos, seu substituto, em 1979 em Pedrógão Grande, tendo ajudado na organização/formação de um Grupo Sócio-caritativo do qual eu fui colaborador.

Consta que gostava de ser tratado por Dr. Padre Matos parece que afirmava: "Sou padre em part-time e o meu lugar não é aqui...". "...missas coletivas... não se pode andar sempre a celebrar missa individuais".

Conta-se  que uma certa vez o Dr. Eduardo Correia marcou uma missa por alma de seu pai, a celebrar na Igreja Matriz. Estava marcada para as 9 horas pelo que, o padre  usou da pontualidade e celebrou a missa. O Dr. Eduardo terá chegado atrasado indo pedir justificações ao padre Matos pelo facto de não ter esperado por ele. Travaram-se de razões tendo o Dr Eduardo ameaçado de ir fazer queixa ao bispo.  "Vá, vá... vá dizer ao bispo que me tire desta m**** desta terra para fora, porque o meu lugar não é aqui." Respondeu-lhe.

Padre Daniel Antunes, enquanto pároco da Igreja Nova, Ferreira do Zêzere, foi professor de Religião e Moral na Escola Preparatória onde eu integrei o Conselho Diretivo. Amigo, colaborador, profissional empenhado, pessoa aberta e de bom relacionamento. Enquanto pároco de Castanheira... não sei nem ouvi contar.

Padre Joaquim...

Padre  (?)

... ausente...

 

dia-de-reis-1-728

 

 

 

 

 

publicado por Sir do Vasco às 23:57

13
Out 16

ANTES DA BROA

Amassa-se a farinha, mistura-se o fermento e deixa-se a levedar.

Agora é preciso aquecer o forno.

Pois é, para cozer a broa é preciso aquecer o forno e para aquecer o forno é preciso lenha.

Atualmente em quase todos os arredores das aldeias existem árvores por podar, árvores secas, arvores a precisar de desbaste. A fuga de pessoas para os grandes centros deixou as aldeias sem gente nova e as propriedades ao abandono. De vez enquanto aparece um “teimoso” e lá vai limpando, cortando silvas. Arranjar lenha é somente preciso levar a ferramenta adequada seja motosserra, serrote ou machado e querer manobra-la. Muita gente dá gratuitamente de boa vontade a lenha das suas árvores, o difícil é arranjar quem queira ir lá cortá-la. Antigamente não era assim, as propriedades e as árvores andavam limpas e a lenha era sempre precisa para cozinhar em casa.

Quando se pretendia aquecer o forno, recorria-se aos gravetos de pinheiro.

Quem sabe o que são gravetos (chamiço, garavato, garaveto, gravato)?

Os gravetos são os ramos secos das árvores. Na Sarzedas um molho de gravetos de pinheiro foi muitas vezes a solução rápida para aquecer o forno. Mas não era fácil dado que os gravetos estavam altos e agarrados ao tronco. Então inventaram o gancho para gravetos. Uma vara comprida de 4 ou 5 metros com um gancho de ferro ou madeira atado com um arame ou pregado na ponta. Com esse gancho puxavam-se os ramos secos para baixo com força até partirem, fazia-se um molho atado com uma corda e levava-se às costas ou à cabeça até ao forno .

 

gancho graveto061.jpg

 

publicado por Sir do Vasco às 22:54

30
Set 16

broa

 

Hoje (ontem, já foi ontem) uma amiga, antiga colega de colégio, Liliete Graça, publicou no FB uma imagem com um conjunto de broas dentro dum forno.

E pergunta ela: “Que vos lembra?”

A brincar eu respondi: “A manteiga, pão quentinho, manteiga fresquinha.”

Na verdade o que me ocorreu de imediato quando vi a imagem foi a recordação da minha avó Conceição e da minha mãe, quando coziam o pão. Que eu nunca comi com manteiga nessa altura. O que às vezes me calhava, na Páscoa, era uma broita pequena com açúcar e erva doce.

Esta imagem deu origem a um conjunto de comentários, que todos eles me fazem lembrar a Sarzedas do Vasco há muito anos atrás.

A broa que se cozia e guardava na arco do milho.

A broa, que assim, durava quinze e não endurecia.

A broa que se acabava e por vezes não dava jeito cozê-la  de imediato, pedia-se uma emprestada à vizinha. Talvez o moleiro não tivesse passado, é que era preciso mandar milho pelo moleiro que o levava ao moinho, no caso sempre na Ribeira de Pera, retirava a maquia, e só passado um dia ou dois voltava com a farinha. A maquia era uma parte que o moleiro retirava, para se pagar do trabalho que tinha.

A arca do milho que guardava ovos também.

A arca que servia de mealheiro.

E as peras duras que se punham na arca do milho e ficavam macias em poucos dias.

E como as conversas são como as cerejas falou-se dos chouriços que se faziam.

Das escamisadas. Ah! Que saudades de facto! (escamisadas ou descamisadas era o ato de retirar a capa das espigas, várias pessoas sentavam-se à volta dum monte de espigas de milho e retiravam-lhe a capa. Quando aparecia uma espiga de milho vermelho, chamado milho rei, quem o descamisava teria de dar um abraço a todos os outros presentes).

O papo-seco que se comia às vezes. Por falar em pão de trigo, lembro-me que na Sarzedas só às vezes vinha o padeiro. Quem se lembra do Zé Padeiro, que Deus o tenha? Vivia no Carregal Cimeiro e quando começou a vir dar a volta, trazia um cabaz de pão às costas da padaria do Troviscal até à Sarzedas! Hoje algum padeiro sabe o que é isso?

 

E já agora a minha história do papo-seco.

No início dos anos sessenta, a Cáritas distribuía aos alunos da catequese (ou da Escola?) leite em pó, farinha de milho, farinha de trigo e às vezes queijo. As crianças levavam para casa…   … naturalmente toda família comeria. Como já havia cabecinhas pensadoras nessa época, resolveram entregar a farinha ao padeiro (porque se os pais ou irmãos comessem podia-lhes fazer mal) este passou a levar papo-secos todos os dias à escola, a todas as escolas. Um papo-seco por cada aluno. Claro assim já não era distribuído para levar para casa. Não terá chegado a ser um ano lectivo completo. Foi um “bodo às crianças” que se acabou depressa.

Um papo-seco por dia!

Hoje se comer um pastel de nata, um brigadeiro ou molotov não me sabe tão bem com sabia aquele papo-seco.

https://www.facebook.com/lila.graca.1/posts/990885991057279?comment_id=990936904385521&reply_comment_id=991156394363572

Obrigado pela foto já que mandavas partilhar eu aproveitei deste modo.

publicado por Sir do Vasco às 02:03

02
Fev 16

Cheguei agora a casa.

Estive em um velório.

Em alguns as pessoa falam baixinho. em outros falam e estando muitas pessoas até na rua se conversa noutros não se fala. Quem lá está às vezes tosse, por vezes sem vontade de tossir, dizem "ai, ai!" mais ou menos profundo.

Hoje estavam poucas pessoas , não havia conversas, estive a pensar  e como é rápido pensar:

Dia 2 de Fevereiro, dia da Senhora das Candeias. quase não se sabe o que é uma candeia, como é uma candeia. Como eram os velórios há mais de quarenta ou  cinquenta anos atrás na Sarzedas? Só os mais velhos se lembram.

Se recuarmos cinquenta anos no tempo, na Sarzedas do Vasco habitavam  trinta ou mais famílias que somavam para cima de 100 pessoas. Os velórios  eram em casa. Os defuntos eram colocado no  sobrado, (entenda-se sobrado como sala, é parte que sobrou depois de feitas as divisões da casa, há regiões onde se chama sobrado à própria casa) por vezes em cima duma arca ou de uma mesa, enquanto não chegava o caixão.

O caixão vinha da Castanheira.

Bastante mais tarde o Sr. Manuel Alves Rodrigues, conhecido por Manel das Chitas, começou a vender caixões e com o andar dos tempos fundou a Agencia Funerária Chitas.

As mulheres, donas de casa, logo que sabiam do óbito, cada uma levava a sua candeia de azeite a casa do defunto onde ficava a alumiar durante toda noite. Trinta candeias!

À noite todas as pessoas passavam a dar os sentimentos à famíla enlutada.

Os homens estavam por ali um bocado, até às tantas e iam dormir para suas casas.

As mulheres ficavam a noite toda, se fosse Inverno levavam uma manta para se embrulharem nela, só regressavam a suas casas  na manhã seguinte.

No dia do enterro o  Padre ia a  casa "levantar" o corpo.

O cortejo funebre seguia a pé, até à capela da Sarzedas de S. Pedro.

À frente, tres homens com opas vermelhas. O do meio levava a cruz, os laterais cada um sua lanterna. O Ti João sacristão junto ao padre com a caldeirinha da água benta na mão.

O caixão era transportado em mãos. Quatro homens pegavam nele. Era preciso força e aguentar algum tempo, até que outros homens substituissem os primeiros. Parava-se um momento. Havia várias paragens. Uma era na Ponte Melada. Enquanto se preparavam as trocas dos "carregadores do caixão" o Padre rezava uma oração mais um Pai Nosso e aspergia o caixão com água benta. E lá seguiam todos a pé.

Depois da capela até ao cemitério, ainda se parava mais duas vezes.

Como seria fazer este percurso sem estrada boa ou aceitável, como é hoje? Já não é do meu conhecimento, tenho uma vaga ideia  da construção da atual estrada.

Alguém pode imaginar como seriam os funerais antes de haver cemitério na Sarzedas? A pé até à Castanheira!

Não havia carro funerário! Nos anos sessenta o primo Adelino, O Ti Adrião da Balsa e o Ti Zé Henriques do jogo, fizeram um peditório con intenção de comprar uma carreta para transportar os caixões. quando chegaram a casa do Sr. Albano Morgado ele comprometeu-se a comprar sozinho a dita carreta e assim fez, uma carreta de quatro rodas para transportar as urnas. Mas era preciso empurrá-la à mão. Já era melhor! Com o dinheiro do peditório foi arranjada a estrada à entrada do cemitério,  a primeira ligação à estrada de alcatrão, porque até aí andava-se à volta da horta por uma estrada cheia de covas e buracos.

 

 

 

publicado por Sir do Vasco às 23:04

02
Dez 15

 

 

 

 VEIO À LUZ EM 25 DE JUNHO DE 1925

minha mãe

SARZEDENSE DE NASCIMENTO,

TALVEZ A MAIS ANTIGA À DATA.

ESTEVE CASADA 64 ANOS.

DESENCARNOU EM 29 DE NOVEMBRO DE 2015.

PARA ELA... MISSÃO CUMPRIDA...

POR MIM MUITO FICOU POR DIZER,

MUITO FICOU POR FAZER...

 

 

 

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'

 

publicado por Sir do Vasco às 22:25

13
Nov 15

Descendente de Sarzedas do Vasco, filho do Ti Jaime, serralheiro e da Ti Ilda da Moita, Vitor Silva, conhecido por Vitor da Moita, (também entre os colegas do colégio,Vitor Galinha) partiu.

Na primeira crise pós 25 de Abril, partiu para S. Paulo onde viveu, trabalhou e constituiu familia, há cerca de 40 anos. Agora partiu de  novo  ... deixou todos. Pelo que ouvi dizer foi rápido, muito rápido, não teve tempo para estar doente...

Deixo aqui este humilde sentimento, especialmente para o filho, Vitor Gabriel. 

Também para esposa, mãe e irmã.

Que Deus console o seu espirito.

Victor (da Moita).JPG

  Em 20-03-2010 na Sarzedas

 

Por desconhecimento meu, pois julgava que o Vitor tinha apenas um filho, omiti a filha e genro. Alertado para a incorreção deixo-lhes aqui as minhas desculpas.

Para eles também o mesmo sentimento

publicado por Sir do Vasco às 15:11

29
Jul 15

 

"DE-MO EM MASSA, QUE EU MESMO EM MASSA O COMO"

Em modesta opinião, julgamos que em Portugal atualmente só passa fome quem não quer fazer a "ponta dum corno". Não haverá empregos, ditos bons empregos, mas há muito onde realizar algum dinheiro, sem roubar. Até a pedir se ganha (ou adquir muito) dinheiro, que para alguns, dá para viver.

Enquanto der para brincar com a comida a coisa vai boa! Não somos contra isso.

Hoje a SIC mostrou no jornal da tarde, ali para os lados do Cartaxo, alguém que brinca com as flores de curgete, com recheio que vão ao forno e faz-se algo de comer o chorar por mais. Mostrou também uma produção de plantas aromáticas de "grande sucesso". Também não somos contra.

Mas produções de alimentos, digamos que principais, como batata, feijão, couve, etc, aqueles que são efetivamente necessários no dia a dia da alimentação das pessoas, esses poucos se dedicam a produzi-los... afinal ainda importamos alimentos! Será por não produzirmos suficiente ou por vantagens comerciais?

Na Sarzedas do Vasco, como já referimos, as pessoas viviam do que produziam, contudo com famílias numerosas e com poucos terrenos cultiváveis, nem sempre a abundância era suficiente para que não houvesse fome. Não temos  conhecimento de haver cultivo de curgetes nas hortas da aldeia. Havia sim cultivo de abóboras cuja flor é parecida. Nunca ninguém se terá lembrado de comê-las! Muito menos de recheá-la!

Hoje há tempo para brincar com as comidas, os antigos não tinham esse tempo.

Isto faz-nos lembrar uma estória que ouviamos contar lá na terra. Um certo rapaz tinha por obrigação como muitos outros ir "tirar o gado" ou seja apascentar as ovelhas mas como tinha fome e sabia que a mãe ia cozer o pão foi protelando a saída do gado até que a mãe se põs ao alto com ele e o obrigo a ir embora ainda que com grandes protestos, já que a fome não o deixava. A mãe dizia-lhe  "...o pão vai lá ter". Lá foi para os ladas do  Torroal não se afastando muito da aldeia. Passado algum tempo, dado que ninguem lhe levou a merenda e a fome era ainda mais, abandonou o gado e veio ao lugar ver se a mãe já tinha pão cozido.

"Venho à procura do pão!" Terá ele dito à mãe.

Ao que ela respondeu: "O pão ainda está em massa, vai guardar o gado!" 

Disse o rapaz: "Ò  minha mãe, de-mo em massa, que eu mesmo em massa o como"

Não havia tempo para brincar com a comida!

publicado por Sir do Vasco às 14:19

Outubro 2017
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